sexta-feira, junho 30, 2006

Solidão...


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Edgar Degas

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Apanhei o cabelo
em rabo de cavalo
agora a minha solidão

vê-se tão bem
como a minha face

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E a minha face
é desassombrada
as sombras
não são minhas.

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Adília Lopes

quarta-feira, junho 28, 2006

faltou-me um golpe de asa... (Quase...)

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(imagem retirada da internet)
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Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

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Mário de Sá-Carneiro

domingo, junho 25, 2006

sábado, junho 24, 2006

Rosas



Pierre-Auguste Renoir

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
És tu a Primavera que eu esperava
a vida multiplicada e brilhante
em que é pleno e perfeito cada instante

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
És tu a primavera que eu esperava...


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, junho 22, 2006

Degrau

Van Gohg

Um degrau de uma escada,
nunca foi feito para que
permanecêssemos em cima dele
mas sim
para suportar um pé
apenas o tempo suficiente
para que o outro pé
alcance o degrau seguinte.

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Thomas Huxley