sábado, dezembro 30, 2006

desejo... sonho...

...
Guilherme de Faria
...
Fazer da areia, terra e água
uma canção
Depois, moldar de vento a
flauta
que há de espalhar esta canção
Por fim tecer de amor
lábios e dedos
que a flauta animarão
E a flauta, sem nada mais
que puro som
envolverá o sonho da
canção
por todo o sempre, neste
mundo


Carlos Drummond de Andrade


Desejo... sonho... tanto... ou tão pouco... para um ano completamente novo, prontinho a estrear, prontinho a usar?
Talvez, também, SAÚDE para o encher de AMOR … ALEGRIA … SONHO … MAGIA... será pedir ou desejar demais para que todos tenhamos um ano feliz?

Maria Ema

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Como escrever paixão sem ser assim...

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Imagem "roubada" aqui:
http://instantesperdidos.blogspot.com


Como escrever paixão sem ser assim
Com o corpo nas palavras
Com os sentidos nos dedos
E os dedos sentindo
A paixão que fervilha dentro?
Como fazer amor sem ser assim
Como se cada vez fosse a última
E a última fosse a primeira
E o fogo ardesse dentro
Assim como arde na pele?
Como escrever amar sem ser assim?
Como escrever sem fazer amor?
Sem me entregar em cada poema
E dar-tos como me entrego
Incendiar as palavras
Como me incendeias o corpo
E arder no poema
Como ardo nos teus braços.
Como se cada poema fosse o último
E cada vez a primeira.


Encandescente

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Have You Really Ever Loved A Woman



Pierre-Auguste Renoir



To really love a woman to understand her
you gotta know her deep inside
hear every thought see every dream
and give her wings when she wants to fly

Then when you find yourself lying helpless
in her arms
you know you really love a woman

When you love a woman
you tell her that she's really wanted
You when you love a woman
you tell her that she's the one
she needs somebody
to tell her that it's gonna last forever
so tell me have you ever really
really really ever loved a woman

To really love a woman let her hold you
till you know how she needs to be touched
you gotta breathe her really taste her
till you can feel her in you blood
and when you can see your unborn children
in her eyes
you know you really love a woman

When you love a woman
you tell her that she's really wanted
when you love a woman
you tell her that she's the one
'cause she needs somebody
to tell her that you'll always be together
so tell me have you ever really
really really ever loved a woman

You got to give her some faith
hold her tight a little tenderness
you gotta treat her right
she will be there for you
taking good care of you
you really gotta love your woman

And when you find yourself lying helpless
Have in her arms
you know you really love a woman

When you love a woman
you tell her that she's really wanted
when you love a woman
you tell her that she's the one
'cause she needs somebody
to tell her that it's gonna last forever
so tell me have you ever really
really really ever loved a woman

Just tell me have you ever really
really really ever loved a woman
just tell me have you ever really
really really ever loved a woman


Bryan Adams

segunda-feira, dezembro 25, 2006

quisera...

tempo de adulto, tempo de criança

...

...
...
espero que me calhe a fava
que é costume meter no bolo-rei;
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais partilhava

numa ordem das coisas cuja lei
dos afectos e memória em nós grava
nalgum lugar da alma e que destrava
tanta coisa sumida que, bem sei,

pela sua presença cristaliza
saudade e alegria em sons e brilhos,
sabores, cores, luzes, estribilhos…
e até por quem nos falta então se irisa

na mais pobre semente a intensa dança
do tempo de adulto e tempo de criança.

Vasco Graça Moura

terça-feira, dezembro 19, 2006

Bastava uma palavra...

...

René Magritte


Bastava uma palavra para dizer
O quanto ele a amava
E não a queria perder
Mas tudo o que ele fez foi enlouquecer
Porque a boca não falou
O que o coração queria dizer...
São dois anjos caídos

Do paraíso
São dois anjos perdidos
A um passo do céu
Bastava uma palavra p'ra não deixar

Tudo o que eles tinham
Desaparecer no ar
Mas tudo o que ela fez foi ficar ali
A pensar que tudo o que queria
Era tê-lo junto a si...

Letra e música: Paulo Martins
Intérprete: Sexto Sentido

segunda-feira, dezembro 18, 2006

ao pôr do sol...

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fotografia pessoal


é quase noitinha
o céu entorna no poente
um copo de vinho


Humberto del Maestro

sexta-feira, dezembro 15, 2006

E se falam!...

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Vincent Van Gogh
«“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”»


Olavo Bilac

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Todas as tardes...

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Lia Chechelashvili
Todas as tardes levo a minha sombra a beber
Como uma nuvem ao mar de que saiu o meu ser.

Vitorino Nemésio

quarta-feira, dezembro 13, 2006

só um colar...

. ..
Ivannikova Svetlana (adulterado por um colar...)


estava nua, só um colar lhe dava
horizontes de incêndio sobre o peito,
a transmutar, num halo insatisfeito,
a rosa de rubis em quente lava.

estava nua e branca num estreito
lençol que o fim do sono desdobrava
e a noite era mais livre e a lua escrava
e o mais breve pretérito imperfeito.

só o tempo verbal lhe fugiria,
no alongar dos gestos e requebros,
junto do espelho quando as aves vão.

toda a nudez, toda a melancolia,
a dor do mundo, a deslembrança, a febre,
os olhos rasos de água e solidão.


Vasco Graça Moura

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Beber água de Sonho...

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Jean Honoré Fragonard


Santo e Senha

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.
Deixem, que vai apenas
Beber água de Sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.
Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora
Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
Uma estrela no chão.



Miguel Torga

sábado, dezembro 09, 2006

Sentes a poesia como eu?

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Lin Eliz Schulz
...
...
Sentes
Como te percorro num poema?
Como sílaba a sílaba
Te toco e te quero
Te mordo e te desejo
E amando o poema
Te amo e me prendo a ti?
Sentes
Como as palavras se tornam dedos
Mãos, pernas?
E são como carícias que crescem
E tocam a pele
E a preenchem, a enchem
E sobem no corpo, são corpo
Carne e desejo que pulsa em mim?
Sentes
Como os versos se enrolam e se tocam?
Sentes como se entrelaçam e se enroscam
E te envolvem e te tocam
E se amam e te amam
E têm cheiros, e são sons
E ganham vida e se soltam
E na boca sabem a mim e a ti?
Sentes
Como é escrever as palavras?
Como é senti-las no corpo
Arrancá-las do corpo
Para tas entregar, para que as sintas
Para que o poema seja teu
E sejamos o poema
E eu seja a palavra
E tu sejas a poesia…
Sentes
Como te percorro num poema?...
...Encandescente

Segredo...

...

Gustav Klimt


Um beijo é um segredo que se diz na boca e não no ouvido.


Jean Rostand

sexta-feira, dezembro 08, 2006

blocos de gelo...

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Bert Geer Phillips


Blocos

É isto vivemos dentro
de grandes blocos de gelo
sem aquecermos ao menos
com os dedos outros dedos
No fundo de nós temendo
que um dia se quebre o gelo

David Mourão-Ferreira

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Inquietas de tocar...

...
Rodin
Mãos

Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender


Sophia de Mello Breyner

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Poemas mãos

...
Antoine de Villiers


Não escrevo poemas rectos
Escrevo poemas sinuosos,
Como o teu corpo.
Não escrevo poemas inodoros
Escrevo poemas que têm cheiro,
Como o teu corpo.
Não escrevo poemas inocentes
Escrevo poemas indecentes
Como o que quero fazer,
Ao teu corpo.
Não escrevo poemas inconsequentes
Escrevo poemas sequelas
Marcas que quero deixar,
No teu corpo.
Não escrevo poemas silenciosos
Escrevo poemas que são gritos
Que quero arrancar,
Ao teu corpo.
Não escrevo poemas etéreos, intangíveis
Escrevo poemas mãos
Que querem tocar,
No teu corpo.




encandescentehttp://eroticidades.blogspot.com/2004/12/poema-sinuoso.html
Nota: a página já não funciona, mas foi daqui que, em tempos, tirei o poema

terça-feira, dezembro 05, 2006

Silêncio e tanta gente

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Pierre-Auguste Renoir


Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro o amor em teu olhar
É uma pedra
Ou um grito
Que nasce em qualquer lugar

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou

Às vezes sou também
O tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar

Às vezes sou também
Um sim alegre
Ou um triste não
E troco a minha vida por um dia de ilusão

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra
Ou um grito
De um amor por acontecer

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou
E esta pedra
E este grito
São a história d'aquilo que sou


Maria Guinot
letra, música e interpretação

domingo, dezembro 03, 2006

A parte que é anjo no teu corpo e me procura...

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Marc Chagall

A parte que é

anjo
do teu corpo
e me procura a meio
da madrugada

Sobrevoando o lago

que é suposto
ser no meu sono
aquilo que calava

A parte que é

anjo
no teu corpo

e me visita

a meio da madrugada

descansando as asas

dos teus ombros
a meu lado:
em cima da almofada


Maria Teresa Horta

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Creio... (poema/oração)

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Hieronymus Bosch


poema/oração

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen



Natália Correia