sábado, setembro 30, 2006

A minha solidão


Mitchell Miller


A minha solidão
não é uma invenção
para enfeitar noites estreladas...

...Mas este querer arrancar a própria sombra do chão
e ir com ela pelas ruas de mãos dadas.

...Mas este sufocar entre coisas mortas
e pedras de frio
onde nem sequer há portas
para o Calafrio.

...Mas este rir-me de repente
no poço das noites amarelas...
- única chama consciente
com boca nas estrelas.

...Mas este eterno Só-Um
(mesmo quando me queima a pele o teu suor)
- sem carne em comum
com o mundo em redor.

...Mas este haver entre mim e a vida
sempre uma sombra que me impede
de gozar na boca ressequida
o sabor da própria sede.

...Mas este sonho indeciso
de querer salvar o mundo
- e descobrir afinal que não piso
o mesmo chão do pobre e do vagabundo.

...Mas este saber que tudo me repele
no vento vestido de areia...
E até, quando a toco, a própria pele
me parece alheia.

Não. A minha solidão
não é uma invenção
para enfeitar o céu estrelado...

...mas este deitar-me de súbito a chorar no chão
e agarrar a terra para sentir um Corpo Vivo a meu lado.


José Gomes Ferreira

sexta-feira, setembro 29, 2006

Rendas de água

....


















chuvas de barro
olhos nas rendas desenhadas nas ruas penduradas nas árvores

a água faz-me desenhar
o que nem sei existir

leio os lusíadas
sinto a água em nevoeiro
ao ler sei um novo tempo
iniciado em nós nestas rendas
desejadas em silêncios

escavámos um poço
de sal
apagámos os desejos
neste rio inventado
de palavras sós

fico à beira de mim
tecendo águas
no que nunca diremos


Constança Lucas

quarta-feira, setembro 27, 2006

queria que o meu sonho não parasse

...

Sarah Larsen


e neste sonho de irreais,
eu queria que o meu sonho não parasse,
queria ir dormindo, sem acordar mais,
ou que este sonho não me abandonasse


Zabel Moita

domingo, setembro 24, 2006

Oh! quem me dera que fôramos em tudo semelhantes!

...

Alfredo Keil


Fermoso Tejo meu, quão diferente
Te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
Claro te vi eu já, tu a mim contente.

A ti foi-te trocando a grossa enchente
A quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
O meu viver contente ou descontente.

Já que somos no mal participantes,
Sejamo-lo no bem. Oh! quem me dera
Que fôramos em tudo semelhantes!

Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras de antes,
Eu não sei se serei quem de antes era.


Francisco Rodrigues Lobo

sexta-feira, setembro 22, 2006

Cavalo à solta

....

Pino Daeni


Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve, breve
instante da loucura

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura



Ary dos Santos

terça-feira, setembro 19, 2006

Entrega...

...
Vladimir Kim

É quando estás de joelhos
que és toda bicho da Terra
toda fulgente de pêlos
toda brotada de trevas
toda pesada nos beiços
de um barro que nunca seca
nem no cântico dos seios
nem no soluço das pernas
toda raízes nos dedos
nas unhas toda silvestre
nos olhos toda nascente
no ventre toda floresta
em tudo toda segredos
e de joelhos me entregas
sempre que estás de joelhos
todos os frutos da Terra.



David Mourão Ferreira

sexta-feira, setembro 15, 2006

Espáduas brancas palpitantes

....

Polina Nechaeva


Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.


Natália Correia

quarta-feira, setembro 13, 2006

Que fazes aí, Lisboa?

...
Abel Manta


Que fazes aí, Lisboa,
De olhos fincados no rio?
Os olhos não se levantam
Para prender um navio?
Que fazes aí, Lisboa,
De olhos fincados no rio?

O barco que ontem partiu
Partiu e não volta mais!
Chora lágrimas de pedra
Em cada esquina do cais!
O barco que ontem partiu,
Partiu e não volta mais!

Lisboa, velha Lisboa,
Mãe pobre à beira do rio!
Seja o cheiro dos meus ombros
Agasalho do teu frio!
Lisboa, velha Lisboa,
Mãe pobre à beira do rio!


Mário Gonçalves

sexta-feira, setembro 08, 2006

Escreve-me um poema!

...

Danielle Clement

Escreve-me um poema!
Sim, um poema!
Que mal é que tem?
Basta falares dos teus sentimentos, do teu amor…
Fala de ti. Fala de mim.
Lembra-te que será para guardar no coração…
Para avivar as chamas do amor
quando elas se começam a apagar.

Não importa o tempo que demorares,
Mas por favor, escreve-me por amor…


J.F. - 1990 (c/ 12 anos)

quarta-feira, setembro 06, 2006

e será tarde até saber que não existes...

...
August Macke

Neste curso espaço entre nós e a morte
tão mal gastamos a nossa despedida!

Tu, amor de quem (não) sei o nome
de onde não sei a sorte,
vais passar além deste poema que era teu
e assim, de morte construída,
teus passos vão enchendo a minha vida.

Outro nome será flor sobre os teus lábios,
e outros dedos tocarão a límpida frescura
dos teus ombros quase d`água
e saberão de cor o horizonte branco do teu corpo…

E assim iremos de olhos futuros,
tu, envelhecendo da minha ausência,
eu, a erguer-te na curva da esperança,

e outra mão vai desmanchar a tua trança
e hei-de beijar teu rosto onde não eras
e serás só o que há antes das horas mais tristes
(e será tarde até saber que não existes)

Neste curto espaço entre nós e a morte,
onde me vais perdendo,
onde te vou buscando,
nosso amor se vai embora alimentando
de despedida;

não porque morra o tempo em teus braços,
mas a vida.


Victor Matos e Sá

segunda-feira, setembro 04, 2006

um só coração se ouvia embalado pelo mar

...

José Malhoa


A noite era quase dia
e o vento vinha do mar
Soltaram-se teus cabelos
antes mesmo de os tocar

Os olhos ainda fugiam
evitando se encontrar
E teu corpo de tão perto
não me deixava falar

Quanto tempo assim passou
até o céu se dourar...
Na areia quente e macia

Batendo quase em surdina
um só coração se ouvia
embalado pelo mar.


Eugénia Tabosa