sábado, março 31, 2007

Sou ave bem educada. Serei ?

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Ema


Arrancam-me as penas
E eu sofro sem dizer nada:
- Sou ave
Bem educada.

E, se quisesse,
Podia
Morder-lhes as mãos morenas,
A esses que sem piedade
Me roubam estas penas que me cobrem;

E, no entanto,
Sem o mais breve gemido,
O meu corpo
Vai ficando
Desguarnecido...

E, elas,
Aquelas
Que se enfeitam, doidamente,
Com estas penas formosas
- Que são minhas!
Passam por mim, desdenhosas,
Em gargalhadas mesquinhas.
Sim; eu sofro sem dizer nada:
- Sou ave
Bem educada.


António Botto

quinta-feira, março 29, 2007

entre o que fui e o que sou...

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Israel Zzepda


Num espaço falso entre o que fui e o que sou
perduram as frases que eu não disse
aqueles gestos que eu não quis fazer
e toda a história da minha vida
que o destino não pôde escrever.


Olavo Rubens

terça-feira, março 27, 2007

seria mais fácil ...

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Joanne Battiste
..
..
Mote:
" Seria mais fácil
Fazer como todo mundo faz "
.
Humberto Gessinger
.
.
Realmente, tudo seria mais fácil.
Ser parte da carneirada.
Não ver, não ouvir, não falar.
.
Principalmente não reclamar
.
Talis Andrade

segunda-feira, março 26, 2007

conta-me...

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Pierre-Auguste Renoir
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...
Conta-me
Conta-me o que se calou ainda.
Conta-me a memória, os sorrisos,
a doçura.
Põe a música certa a tocar e conta-me.
Conta-me o sentido, o racionalizado.
Conta-me das histórias,
dos equilibrismos.
Faz-me um desenho, uma pintura.
Diz-me como estava o céu,
como brilhavam as estrelas,
como já se ia embora Vénus
e a aurora raiava o negro
de rosas e amarelos.
Diz-me como foi o dia,
aquece-me desse mesmo sol.
Conta-me das metamorfoses,
dos crescimentos,
dos pés já doridos,
dos sonhos acordados.
.
Conta-me.
Não esqueças nem um pormenor,
um pensamento, um fio.
Conta-me.
Preenche cada espaço,
soletra cada letra.
Não te enganes nos ondes,
nos quandos, nos porquês.
Conta-me.
Recorda, agora, memória.
Conta-me tudo o que já começo a esquecer


Hipatia

domingo, março 25, 2007

tocar sobre teu corpo um acorde de guitarra

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Erika Stander


tocar sobre teu corpo
ao silêncio das estrelas
um acorde de guitarra


Ronaldo Bomfim

hora de camaleões

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Jacques Louis David


Altifalam vozes
nos salões e nas praças
nos ouvidos nos tumultos
martelam esmurram gritam palmejam
comunicam urram.
Conferências discursos aspectos e palestras
lições homenagens notas do dia e da semana
et nunc et semper.
Discursos almicos encomendados traduzidos
decorados divertidos ambaquistas.
Palavras datilografadas improvisos ponderados
palavras dinâmicas magnéticas.
Altifalam palavras.
Hora de camaleões e altifalantes.



Mendes de Carvalho

sábado, março 24, 2007

O medo vai ter tudo... havemos todos de chegar a ratos

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Hieronymus Bosch
...
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O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
...
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles
...
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
...
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
...
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
sim
a ratos
...
...
Alexandre O’Neill

quinta-feira, março 22, 2007

quarta-feira, março 21, 2007

Esse lado de mim...

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Israel Zzpeda


Esse lado de mim que vive
Desejando partir
É minha metade forasteira,
Selvagem e traiçoeira...

Chega ansiando ir embora,
Parte pensando em voltar,
E amarga uma impaciência que não controla...

Esse lado de mim que passeia pela vida
Sorrindo diante do intocável,
Brilhando olhos de lobo,

Voz mansa quebrando o silêncio,
É a parte de mim que não sabe o que quer,
Minha metade cansada,
Frágil e sensível...

Deseja ser guiada por um sonho,
Brincar na memória de alguém,
Ser parte eterna de uma alma
Que já aprendeu a amar...


Débora Böttcher

segunda-feira, março 19, 2007

Evolução?

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O que me impressiona,
à vista de um macaco,
não é que ele tenha sido
nosso passado:
é este pressentimento
de que ele venha a ser
nosso futuro.
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Mário Quintana

domingo, março 18, 2007

ali se espera...

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Kondrashov Sergey
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luz amarela no quarto dela
ali se espera
que um sonho entre pela janela
...
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Alonso Alvarez

sexta-feira, março 16, 2007

onde queres que deixe?

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( fotografia pessoal)
...
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Onde queres que deixe as manhãs
que regressam dos poemas por dizer-te?

Onde queres que deixe o silêncio excessivo
das buganvílias que os dias ainda colhem
em cada varanda que não dá para o mar?

Onde queres que deixe as intactas travessias
que me inquietam os dedos e a sede,
como se houvesse um rio onde só a lua
tem nome e que só eu reconheço?

Onde queres que deixe a suave inclinação
de todas as planícies que um dia
te quis escrever?

Sandra Costa

Vem...

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John Henry Fuseli
...
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Vem ao baile vem ao baile
Pelo braço ou pelo nariz
Vem ao baile vem ao baile
E vais ver como te ris
Deixa a tristeza roer
As unhas de desespero
Deixa a verdade e o erro
Deixa tudo vem beber
Vem ao baile das palavras
Que se beijam desenlaçam
Palavras que ficam passam
Como a chuva nas vidraças
Vem ao baile oh tens de vir
E perder-te nos espelhos
Há outros muito mais velhos
Que ainda sabem sorrir
Vem ao baile da loucura
Vem desfazer-te do corpo
E quando caíres de borco
A tua alma é mais pura
Vem ao baile vem ao baile
Pelo chão ou pelo ar
Vem ao baile baile baile
E vais ver o que é bailar.
...
...
Alexandre O’Neill

quarta-feira, março 14, 2007

terça-feira, março 13, 2007

é assim, a música...

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Israel Zzepda


A música é assim: pergunta,
insiste na demorada interrogação
– sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração – por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.


Eugénio de Andrade

segunda-feira, março 12, 2007

tudo arrumado...

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René Magritte
.
.
Corpo arrumado
pendurado na cruzeta
Descansam os pés sobre a mesa

.
.Maria Ema

quarta-feira, março 07, 2007

há instantes-lâmina

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Livia Alessandrini


há instantes-lâmina,
instantes que nos retalham
e nos confrontam com quem somos
e porquê.
Percorrem-nos lentamente
em sua natureza afiada.


Silvia Chueire

segunda-feira, março 05, 2007

sexta-feira, março 02, 2007

Governos e povo... caminhos divergentes

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Vincent Van Gogh


Um presidente resolve
Construir uma boa escola
Numa vila bem distante.
Mas ninguém vai nessa escola:
Não tem estrada pra lá.

Depois ele resolveu
Construir uma estrada boa
Numa outra vila do Estado.
Ninguém se muda pra lá
Porque lá não tem escola.


História do Brasil
Murilo Mendes