sexta-feira, julho 27, 2012

Congresso Internacional do Medo

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Maynard Dixon


Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,

depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas


Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, julho 23, 2012

Quem nos rouba a honra...

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Maynard Dixon


Quem nos rouba a honra
não fica mais rico e
deixa-nos irremediavelmente pobres


Shakespeare em “Othelo”

sexta-feira, julho 20, 2012

The reason...

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Leslie Lee


The reason
there are so few female politicians
is that it is too much trouble to put makeup on two faces


Maureen Murphy

terça-feira, julho 17, 2012

ensina a cada alma a sua rebeldia...

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Konstantin Bessmertny


Canta, poeta canta!
Violenta o silêncio conformado
Cega com outra luz a luz do dia
Desassossega o sossegado
Ensina a cada alma a sua rebeldia


Miguel Torga

sexta-feira, julho 06, 2012

Ai, Aurora! Traidora!

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Pierre Auguste Renoir


Ai que vida mais triste! Ando mesmo abatido,
Vi hoje a minha amante nos braços do marido,
Já não quero viver, após tal decepção
E ando mesmo a poupar p'ra comprar um caixão.
Ai, Aurora! Traidora!

Já não tenho palavras, fiquei sem argumentos,
Ela quer abusar dos meus bons sentimentos.
Abraçada àquele tipo diante de mim,
Perante tal ultraje, isto não fica assim.
Ai, Aurora! Traidora!

Eu nem sei que fazer neste mundo malvado,
Já se diz por aí: «O Lulu é veado»
E p'ra me chatear, disse-me ela uma vez:
«O mais corno dos dois, não é aquele que tu crês!»
Ai, Aurora! Traidora!

Mas que raio me deu, p'ra não desconfiar,
Da enorme traição que pairava no ar,
Porque os filhos que tem, fui eu quem os quis,
O que há dias nasceu, não tem o meu nariz.
Ai, Aurora! Traidora!

Se te apanho outra vez nessa pouca vergonha,
Ai que não me contenho, dou-te cabo da fronha.
Escolher o marido p'ra enganar o amante.
É levar o adultério ao ponto culminante.
Ai, Aurora! Traidora!


Poesia e Música - Georges Brassens
Adaptação e Interpretação - Luís Cília

quinta-feira, julho 05, 2012

Quem tira de mim esta saudade?

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Remedios Varo


Quem tira de mim esta saudade?
dentro de mim vive
na serenidade
de tê-la tão minha

Não nasci de certezas
e também nunca as encontrei
delas não tenho as saudades
e não as quero também

Flutuo na realidade
sem a conhecer
vejo-a demais
e não a quero também

Saudades tenho
do que imaginei que fosse o mundo
na minha bicicleta
solta sem caminho
queria continuar a acreditar
que assim era
numa solidão de doçura


Constança Lucas

terça-feira, julho 03, 2012

Somos memória e responsabilidade...

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Liu Yaming


Somos a memória que temos
e a responsabilidade que assumimos.
Sem memória não existimos,
sem responsabilidade
talvez não mereçamos existir.


José Saramago