quarta-feira, maio 30, 2007

Que força é essa que te põe de bem com outros e de mal contigo???

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Moshe Rynecki
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"A Sócrates e aos seus ministros interessa a propagação da resignação e da desistência da luta. A Sócrates e aos colaboradores interessa que arrependidos manifestemos todos publicamente a nossa contrição e fidelizemos a nossa submissão. Afinal, que força é essa, que força é essa amigo? – pergunta o inteligente. Que força é essa que não só resiste, como abre o contra-ataque e retoma a ofensiva? Que força é essa que não desiste, mas assume a dianteira?"
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Francisco Queirós
in: http://www.asbeiras.pt/?area=opiniao&numero=42024&ed=26042007
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Mas como ainda existe quem só mostre esta força, pergunto:
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Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr'ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força pra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro
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Que força é essa [bis]
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo [bis]
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo [bis]
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Não me digas que não me compr'endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr'endes
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Letra e música: Sérgio Godinho
In: "Sobreviventes"; 1971

sábado, maio 26, 2007

congelados...

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Maria Martinez Contreras


Em blocos de gelo transformados,
refrescamos-lhes as bebidas
com que se deliciam enquanto nos lixam


Maria Ema

domingo, maio 20, 2007

Sou de um país... onde importa voltar a dizer não.

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fotografia pessoal
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Sou das praias batidas pelo vento,
dos campos secos a perder de vista,
dos dias que anoitecem de repente,
das noites sem manhã como saída.
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Sou dos mares azuis que não navego,
dos caminhos de pó e erva nas bermas,
das casas velhas onde cresce o medo,
das portas que se fecham a quem chega.
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Sou de um país de sal e solidão,
onde importa voltar a dizer não.
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Torquato da Luz

sábado, maio 19, 2007

Naqueles dias lavados em que sou anjo e sou morta

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José Roosevelt
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Nos dias imaculados
Em que ninguém bate à porta,
Naqueles dias lavados
Em que sou anjo e sou morta,

Em que da luz dos desertos
Partem chamadas e gritos,
E à flor dos olhos abertos
Se adormecem infinitos...

Tudo a escorrer frio e ordem,
Horas certas e contadas,
Sem que os soluços me acordem
Mesmo a dar-me chicotadas.

E me rasguem pele e calma,
E me atirem para o fundo
- O fundo da minha alma,
O fundo do Fim do Mundo.

E de rojo, como dantes,
Me larguem pelos caminhos.
E me esmaguem os Gigantes
E me intimidem os ninhos.

E ao curso ingénuo dos rios
Me entreguem como uma folha,
Bem ressequida... e bem morta!
P'ra que ninguém me recolha.

Mudas viagens eu faça
Nas águas que ninguém olha.


Natércia Freire

sexta-feira, maio 18, 2007

quinta-feira, maio 17, 2007

Se te encontrasse, agora...

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Ken Flett
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Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade.
Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos meus passos,
e um cansaço impossível de escondê-las.
Contava-te da nossa pobre história,
de desenhar na sombra das paredes
e de tecer o destino que escolheres.
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De uma história de luas e de esquinas
com retratos e flores da madrugada
ou da luz, da luz de anoitecer.
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Letra: Dinis Machado
Música: José Luís Tinoco
Interpretação: Carlos do Carmo

quarta-feira, maio 16, 2007

corpoema

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Maria Amaral


Das sílabas a espátula
começa pouco a pouco

a modelar-te em alma
o que era apenas corpo

De sílabas a estátua
De lâminas o sopro

O que era apenas alma
volve-se agora corpo



David Mourão Ferreira

domingo, maio 13, 2007

Tem-me cavalgado... mas não me pôs a pensar como você!

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Pieter Brueghel - jogo do "amocha"
(pormenor do quadro "jogos de crianças")


Você tem-me cavalgado,
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.


Alexandre O`Neill

quarta-feira, maio 09, 2007

Inútil!

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Tatyana Gorshunova
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Inútil. A gaiola
nunca aprisiona
as penas do canto.

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Yeda Prates Bernis

terça-feira, maio 08, 2007

Comigo me desavim...

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Gustav Klimt
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Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.
.Com dor, da gente fugia,
antes que esta assim crecesse;
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo,
tamanho imigo de mim?.
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Sá de Miranda

sábado, maio 05, 2007

Com fúria e raiva acuso o demagogo

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José Clemente Orozco - el demagogo


Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada
De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra



Sophia de Mello Breyner

quinta-feira, maio 03, 2007

porque é que este sonho absurdo não me obedece?

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Alanna Marohnic


Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.


José Gomes Ferreira

quarta-feira, maio 02, 2007

A chuva regressou pela boca da noite...

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Kawase Hasui
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A chuva regressou pela boca da noite
Da sua grande caminhada
Qual virgem prostituída
Lançou-se desesperada
Nos braços famintos
Das árvores ressequidas!
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(Nos braços famintos das árvores
Que eram os braços famintos dos homens...)
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Derramou-se sobre as chagas da terra
E pingou das frestas
Do chapéu roto dos desalmados casebres das ilhas
E escorreu do dorso descarnado dos montes!
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Desceu pela noite a serenar
A louca, a vagabunda, a pérfida estrela do céu
Até que ao olhar brando e calmo da manhã
Num aceno farto de promessas
Ressurgiu a terra sarada
Ressumando a fartura e a vida!
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Nos braços das árvores...
Nos braços dos homens...
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Onésimo Silveira