sábado, dezembro 30, 2006

desejo... sonho...

...
Guilherme de Faria
...
Fazer da areia, terra e água
uma canção
Depois, moldar de vento a
flauta
que há de espalhar esta canção
Por fim tecer de amor
lábios e dedos
que a flauta animarão
E a flauta, sem nada mais
que puro som
envolverá o sonho da
canção
por todo o sempre, neste
mundo


Carlos Drummond de Andrade


Desejo... sonho... tanto... ou tão pouco... para um ano completamente novo, prontinho a estrear, prontinho a usar?
Talvez, também, SAÚDE para o encher de AMOR … ALEGRIA … SONHO … MAGIA... será pedir ou desejar demais para que todos tenhamos um ano feliz?

Maria Ema

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Como escrever paixão sem ser assim...

...

Imagem "roubada" aqui:
http://instantesperdidos.blogspot.com


Como escrever paixão sem ser assim
Com o corpo nas palavras
Com os sentidos nos dedos
E os dedos sentindo
A paixão que fervilha dentro?
Como fazer amor sem ser assim
Como se cada vez fosse a última
E a última fosse a primeira
E o fogo ardesse dentro
Assim como arde na pele?
Como escrever amar sem ser assim?
Como escrever sem fazer amor?
Sem me entregar em cada poema
E dar-tos como me entrego
Incendiar as palavras
Como me incendeias o corpo
E arder no poema
Como ardo nos teus braços.
Como se cada poema fosse o último
E cada vez a primeira.


Encandescente

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Have You Really Ever Loved A Woman



Pierre-Auguste Renoir



To really love a woman to understand her
you gotta know her deep inside
hear every thought see every dream
and give her wings when she wants to fly

Then when you find yourself lying helpless
in her arms
you know you really love a woman

When you love a woman
you tell her that she's really wanted
You when you love a woman
you tell her that she's the one
she needs somebody
to tell her that it's gonna last forever
so tell me have you ever really
really really ever loved a woman

To really love a woman let her hold you
till you know how she needs to be touched
you gotta breathe her really taste her
till you can feel her in you blood
and when you can see your unborn children
in her eyes
you know you really love a woman

When you love a woman
you tell her that she's really wanted
when you love a woman
you tell her that she's the one
'cause she needs somebody
to tell her that you'll always be together
so tell me have you ever really
really really ever loved a woman

You got to give her some faith
hold her tight a little tenderness
you gotta treat her right
she will be there for you
taking good care of you
you really gotta love your woman

And when you find yourself lying helpless
Have in her arms
you know you really love a woman

When you love a woman
you tell her that she's really wanted
when you love a woman
you tell her that she's the one
'cause she needs somebody
to tell her that it's gonna last forever
so tell me have you ever really
really really ever loved a woman

Just tell me have you ever really
really really ever loved a woman
just tell me have you ever really
really really ever loved a woman


Bryan Adams

segunda-feira, dezembro 25, 2006

quisera...

tempo de adulto, tempo de criança

...

...
...
espero que me calhe a fava
que é costume meter no bolo-rei;
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais partilhava

numa ordem das coisas cuja lei
dos afectos e memória em nós grava
nalgum lugar da alma e que destrava
tanta coisa sumida que, bem sei,

pela sua presença cristaliza
saudade e alegria em sons e brilhos,
sabores, cores, luzes, estribilhos…
e até por quem nos falta então se irisa

na mais pobre semente a intensa dança
do tempo de adulto e tempo de criança.

Vasco Graça Moura

terça-feira, dezembro 19, 2006

Bastava uma palavra...

...

René Magritte


Bastava uma palavra para dizer
O quanto ele a amava
E não a queria perder
Mas tudo o que ele fez foi enlouquecer
Porque a boca não falou
O que o coração queria dizer...
São dois anjos caídos

Do paraíso
São dois anjos perdidos
A um passo do céu
Bastava uma palavra p'ra não deixar

Tudo o que eles tinham
Desaparecer no ar
Mas tudo o que ela fez foi ficar ali
A pensar que tudo o que queria
Era tê-lo junto a si...

Letra e música: Paulo Martins
Intérprete: Sexto Sentido

segunda-feira, dezembro 18, 2006

ao pôr do sol...

...

fotografia pessoal


é quase noitinha
o céu entorna no poente
um copo de vinho


Humberto del Maestro

sexta-feira, dezembro 15, 2006

E se falam!...

...

Vincent Van Gogh
«“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”»


Olavo Bilac

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Todas as tardes...

....

Lia Chechelashvili
Todas as tardes levo a minha sombra a beber
Como uma nuvem ao mar de que saiu o meu ser.

Vitorino Nemésio

quarta-feira, dezembro 13, 2006

só um colar...

. ..
Ivannikova Svetlana (adulterado por um colar...)


estava nua, só um colar lhe dava
horizontes de incêndio sobre o peito,
a transmutar, num halo insatisfeito,
a rosa de rubis em quente lava.

estava nua e branca num estreito
lençol que o fim do sono desdobrava
e a noite era mais livre e a lua escrava
e o mais breve pretérito imperfeito.

só o tempo verbal lhe fugiria,
no alongar dos gestos e requebros,
junto do espelho quando as aves vão.

toda a nudez, toda a melancolia,
a dor do mundo, a deslembrança, a febre,
os olhos rasos de água e solidão.


Vasco Graça Moura

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Beber água de Sonho...

....

Jean Honoré Fragonard


Santo e Senha

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.
Deixem, que vai apenas
Beber água de Sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.
Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora
Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
Uma estrela no chão.



Miguel Torga

sábado, dezembro 09, 2006

Sentes a poesia como eu?

....
Lin Eliz Schulz
...
...
Sentes
Como te percorro num poema?
Como sílaba a sílaba
Te toco e te quero
Te mordo e te desejo
E amando o poema
Te amo e me prendo a ti?
Sentes
Como as palavras se tornam dedos
Mãos, pernas?
E são como carícias que crescem
E tocam a pele
E a preenchem, a enchem
E sobem no corpo, são corpo
Carne e desejo que pulsa em mim?
Sentes
Como os versos se enrolam e se tocam?
Sentes como se entrelaçam e se enroscam
E te envolvem e te tocam
E se amam e te amam
E têm cheiros, e são sons
E ganham vida e se soltam
E na boca sabem a mim e a ti?
Sentes
Como é escrever as palavras?
Como é senti-las no corpo
Arrancá-las do corpo
Para tas entregar, para que as sintas
Para que o poema seja teu
E sejamos o poema
E eu seja a palavra
E tu sejas a poesia…
Sentes
Como te percorro num poema?...
...Encandescente

Segredo...

...

Gustav Klimt


Um beijo é um segredo que se diz na boca e não no ouvido.


Jean Rostand

sexta-feira, dezembro 08, 2006

blocos de gelo...

....
Bert Geer Phillips


Blocos

É isto vivemos dentro
de grandes blocos de gelo
sem aquecermos ao menos
com os dedos outros dedos
No fundo de nós temendo
que um dia se quebre o gelo

David Mourão-Ferreira

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Inquietas de tocar...

...
Rodin
Mãos

Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender


Sophia de Mello Breyner

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Poemas mãos

...
Antoine de Villiers


Não escrevo poemas rectos
Escrevo poemas sinuosos,
Como o teu corpo.
Não escrevo poemas inodoros
Escrevo poemas que têm cheiro,
Como o teu corpo.
Não escrevo poemas inocentes
Escrevo poemas indecentes
Como o que quero fazer,
Ao teu corpo.
Não escrevo poemas inconsequentes
Escrevo poemas sequelas
Marcas que quero deixar,
No teu corpo.
Não escrevo poemas silenciosos
Escrevo poemas que são gritos
Que quero arrancar,
Ao teu corpo.
Não escrevo poemas etéreos, intangíveis
Escrevo poemas mãos
Que querem tocar,
No teu corpo.




encandescentehttp://eroticidades.blogspot.com/2004/12/poema-sinuoso.html
Nota: a página já não funciona, mas foi daqui que, em tempos, tirei o poema

terça-feira, dezembro 05, 2006

Silêncio e tanta gente

....
Pierre-Auguste Renoir


Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro o amor em teu olhar
É uma pedra
Ou um grito
Que nasce em qualquer lugar

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou

Às vezes sou também
O tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar

Às vezes sou também
Um sim alegre
Ou um triste não
E troco a minha vida por um dia de ilusão

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra
Ou um grito
De um amor por acontecer

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou
E esta pedra
E este grito
São a história d'aquilo que sou


Maria Guinot
letra, música e interpretação

domingo, dezembro 03, 2006

A parte que é anjo no teu corpo e me procura...

...

Marc Chagall

A parte que é

anjo
do teu corpo
e me procura a meio
da madrugada

Sobrevoando o lago

que é suposto
ser no meu sono
aquilo que calava

A parte que é

anjo
no teu corpo

e me visita

a meio da madrugada

descansando as asas

dos teus ombros
a meu lado:
em cima da almofada


Maria Teresa Horta

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Creio... (poema/oração)

....
Hieronymus Bosch


poema/oração

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen



Natália Correia

quinta-feira, novembro 30, 2006

No país dos sacaninhas

...

? - influence of satan

Dêem-me um sacana à moda antiga
Como nos filmes de outras eras
Quando a sacanice se vestia e assumia
E olhando-os se reconhecia e temia fato e sacana.
Hoje só existem sacaninhas
Betinhos com caras de sonsos
Vozes delicadas
Boas maneiras
Aprumados
Bem-educados
Bem vestidos
E bem comportados
Frágeis como donzelas
Usam tretas freudianas à lapela
Não são filhos da puta
São filhinhos da mamã.
Até na sacanice este país se tornou pequeno
Apoucado
Mesquinho
Medíocre
Desgraçado
Temos os sacanas que merecemos.
Ah ...
Quem dera um sacana à moda antiga
E não estes piolhos que por aí pululam
Com sacanices iguais
Normalizadas
Que só fazem comichão não dão tesão
Tão frágeis
Tão indefesos
Tão pequeninos
Que se teme que se quebrem e se partam
Se levarem uma sacudidela
Ou uma simples lambada.


Encandescente - Palavras Mutantes

Imagem in:
http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendid=23755810

segunda-feira, novembro 27, 2006

Poema

...
Mário Cesariny


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto... tão perto... tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

sábado, novembro 25, 2006

este oferecer-se de dentro...

..
Gustav Klimt - Fulfillment


Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém.


António Gedeão



Rui de Sousa - caricatura de António Gedeão in:
http://desenhosdorui.blogs.sapo.pt/tag/caricaturas

quarta-feira, novembro 22, 2006

o meu amigo está longe... (Cantiga de amigo)

...
Pablo Picasso


Nem um poema nem um verso nem um canto
tudo raso de ausência tudo liso de espanto
e nem Camões Virgílio Shelley Dante

- o meu amigo está longe
e a distância é bastante.

Nem um som nem um grito nem um ai
tudo calado todos sem mãe nem pai
Ah não Camões Virgílio Shelley Dante!

- o meu amigo está longe
e a tristeza é bastante.

Nada a não ser este silêncio tenso
que faz do amor sozinho o amor imenso.
Calai Camões Virgílio Shelley Dante

- o meu amigo está longe
e a saudade é bastante!


Ary dos Santos

terça-feira, novembro 07, 2006

O Meu Amor

...
Maria Amaral


O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele inteira fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada, ai

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes, ai

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita, ai

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz


Chico Buarque/1977-1978
Para a peça Ópera do Malandro

sexta-feira, novembro 03, 2006

Hás-de chegar

...

René Magritte

Como tudo
Hás-de chegar com o corpo
Encostado ao rosto
Da cidade.
Com teus olhos
Decididamente tristes
Vens tomar a minha mão
Dar-lhe o gosto das cerejas
E levá-la ao teu
Mais secreto descaminho.
Hás-de chegar
Nas asas do silêncio
Tão mansa como a tarde
Que se esvai
Entornando sobre o chão
O perfil agudo das paredes.
Chegas hoje ou amanhã
Quem sabe?
Hás-de chegar de surpresa
Como sempre
Desviando o sentido dos relógios
E pedindo que o desejo
Se vista de veludo.
(prefiro cetim)

José Fanha

quinta-feira, novembro 02, 2006

Eu vi quando você me viu...

...
Maria Amaral



Eu vi quando você me viu
Seus olhos pousaram nos meus
Num arrepio sutil
Eu vi... pois é, eu reparei
Você me tirou pra dançar
Sem nunca sair do lugar
Sem botar os pés no chão
Sem música pra acompanhar

Foi só por um segundo
Todo o tempo do mundo
E o mundo todo se perdeu

Eu vi quando você me viu
Seus olhos buscaram nos meus
O mesmo pecado febril
Eu vi... pois é, eu reparei
Você me tirou todo o ar
Pra que eu pudesse respirar
Eu sei que ninguém percebeu
Foi só você e eu

Foi só por um segundo
Todo o tempo do mundo
E o mundo todo se perdeu
Ficou só você eu eu

Quando você me viu...


Letra: Cláudio Lins
Interpretação: Maria Rita

quarta-feira, novembro 01, 2006

Olha-me de novo


Toulouse Lautrec


Se te pareço nocturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei.
E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.


Hilda Hilst

segunda-feira, outubro 30, 2006

Como é possível perder-te sem nunca te ter achado...

....

Shwidkiy Andrey


Poema Sobre a Recusa
Como é possível perder-te

sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus

dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade

nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor

nem o interior da erva

Como é possível perder-te

sem nunca te ter achado
minha raiva

de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda


Maria Teresa Horta

domingo, outubro 29, 2006

e sonho que me estás acariciando...


Maria Amaral - rêve dùne caresse



Danças...
teus gestos são
carícias mansas,
a tua dança é um tateio vago,
é o próprio tato dedilhando
as melodias do afago...
Danças,
e fico,
a quando e quando,
presa de gozo singular,
e sonho que me estás acariciando,
e sinto em todo o corpo o teu gesto passar.


Gilka Machado

sábado, outubro 28, 2006

Flor de água


Maria Amaral - la vague


Ignoro o que seja a flor da água
mas conheço o seu aroma:
depois das primeiras chuvas
sobe ao terraço,

entra nu pela varanda,
o corpo inda molhado
procura o nosso corpo e começa a tremer:
então é como se na sua boca

um resto de imortalidade
nos fosse dado a beber,
e toda a música da terra,
toda a música do céu fosse nossa,

até ao fim do mundo,
até amanhecer.



Eugénio de Andrade

sexta-feira, outubro 27, 2006

Só sei amar assim...


Barbara Coleman



Quisera desabar sobre ti

como chuva forte.

Só sei amar assim -
e é assim que te lavro, deserto.



Olga Savary

quarta-feira, outubro 25, 2006

Desperta-me de noite o teu desejo

...
Gustav Klimt


Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

É rede a tua língua
em sua teia
é vício as palavras
com que falas

E queres-me de amor
e dás-me o tempo

a trégua
a entrega
o disfarce


E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes

Despertas-me de noite
com o teu corpo

tiras-me do sono
onde resvalo

E eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vais descobrindo vales.
.

Maria Teresa Horta
.

segunda-feira, outubro 23, 2006

charutos, chá das cinco e saudade

...

Julius Stewrt


a sala da minha avó guarda encantos e memórias
conservados em saudade
sons de sorrisos velados, perfumes das quintas feiras
- às cinco em ponto era o chá -
vinham as tias solteiras e um senhor de panamá
que falava em liberdade....

bem ocultas sob o pó dormem antigas histórias
dois sofás de velho couro
jornais do tempo da guerra
da fome e da incerteza
um vaso apenas com terra
junto ao isqueiro de ouro
os cachimbos do avô
dormem soltos sobre a mesa recoberta de tricot

pelas paredes espalhados
quadros a óleo suspendem
parentes desconhecidos
de largo bigode hostil
comendadores no Brasil ... era o tempo de emigrar...
e ainda paira no ar
o odor adocicado dos charutos apagados

a secretária de alçado
postada a um canto, sombria
sob o relógio parado,
ainda hoje vigia
os papéis e o passado

fecho a porta de mansinho, deixo as cortinas cerradas

no silêncio que transborda, de saudade, de carinho,
ouço o relógio sem corda
dar as cinco badaladas...
e depois... chorar baixinho


J. M. Restivo Braz
in:
http://pwp.netcabo.pt/JMRB/default.htm

segunda-feira, outubro 16, 2006

Menina dos olhos de Água


Pierre-Auguste Renoir



Menina em teu peito sinto o Tejo
e vontades marinheiras de aproar
menina em teus lábios sinto fontes
de água doce que corre sem parar

menina em teus olhos vejo espelhos
e em teus cabelos nuvens de encantar
e em teu corpo inteiro sinto o feno
rijo e tenro que nem sei explicar

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar

aprendi nos "Esteiros" com Soeiro
aprendi na "Fanga" com Redol
tenho no rio grande o mundo inteiro
e sinto o mundo inteiro no teu colo

aprendi a amar a madrugada
que desponta em mim quando sorris
és um rio cheio de água levada
e dás rumo à fragata que escolhi

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar...
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar



música e letra de Pedro Barroso
in álbum "Cantos da borda d'água" 1985

domingo, outubro 15, 2006

Nesta certeza que não vens

...

Henry Asencio


Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido

os dedos que me
vogam
nos cabelos

e os lábios que me
roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los...

Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...

Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei
para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.



Maria Teresa Horta

sexta-feira, outubro 13, 2006

Pusemos tanto azul nessa distância...


Vincent van Gogh


Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficámos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.

E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.



Natália Correia

quinta-feira, outubro 12, 2006

Sou doutras coisas...


Heather Jordan


Sou doutras coisas
fiz o meu barco com guitarras e com folhas
e com o vento fiz a vela que me leva
sou pescador de coisas belas, de emoções
sou a maré que sempre sobe e não sossega




Fernando Tordo

quarta-feira, outubro 11, 2006

O sonho é ver formas invisíveis...


Paul Cezanne


O sonho é ver formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.


Fernando Pessoa

terça-feira, outubro 10, 2006

Não... não vou por aí!


Rembrandt van Rijn

Cântico Negro


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí.




José Régio