segunda-feira, julho 23, 2007

Quando é que será quando?

...

Remedios Varo
..

Quando é que o cativeiro
Acabará em mim?
E, próprio dianteiro,
Avançarei enfim?
.
Quando é que me desato
Dos laços que me dei?
Quando serei um facto?
Quando é que me serei?
.
Quando ao virar da esquina
De qualquer dia meu,
Me acharei alma digna
Da alma que Deus me deu?
.
Quando é que será quando?
Não sei. E até então
Viverei perguntando:
Perguntarei em vão.
..
Fernando Pessoa

quinta-feira, julho 19, 2007

e finjo que sou eu que vou...

...

Remedios Varo


A minha sombra sou eu,
ela não me segue, eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nascia
distância imutável de minha sombra a mim
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!


Almada Negreiros

terça-feira, julho 03, 2007

há quem prefira a miragem...

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ABrito - mirrored heart (fotografia)


A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta.

Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


Carlos Drummond de Andrade