segunda-feira, julho 31, 2006

Desencontros...

...

Ernst Ludwig


entre correntes de ar, numa estação
de caminho-de-ferro, parte alguém
e alguém está a chegar e tudo sem
se avistarem por entre a multidão.

fica o destino à solta, mas refém
de ironias do acaso e da emoção
e descuidos do tempo e da razão
nos trilhos apressados de ninguém.

ou por passarem anos, por ser vão
usar adversativas: mas, porém...,
por várias lembranças que também
desencontradamente vêm e vão

na roda da fortuna, quando quem
assim ia passando estava à mão


Vasco Graça Moura
(guião para santa apolónia)

sábado, julho 29, 2006

Amantes do Tejo


David Lambeth


Barco Negro

De manhã, que medo, que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada n'areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o sol penetrou no meu coração.

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas:

São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz qu'estás sempre comigo.

No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo


David Mourão-Ferreira

sexta-feira, julho 28, 2006

Gaivota


René Magritte


Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.


Alexandre O'Neill

quarta-feira, julho 26, 2006

"Peldida"! ... em mim? ou de mim?

....
Konstantin Lomovtzev


Pouco a pouco
Embaralho tudo e nada
Sou meu próprio
Espantalho
Fujo
De mim mesmo
Finjo-me
Da minha própria
Esfinge
Perdido em meu próprio
Labirinto
Sou o que sou
Ou minto? Será isso
Uma regra secreta?


Sebastião Uchoa Leite

segunda-feira, julho 24, 2006

Ternura

...
Maria Amaral


Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira

domingo, julho 23, 2006

Tourada

..
Oxacan painting of a bullfight


Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.

Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.

Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.

Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.

Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.

Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.

Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...

Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.

E diz o inteligente
que acabaram as canções.


Música: Fernando Tordo
Letra: Ary dos Santos
In: 1973.

sexta-feira, julho 21, 2006

Por una cabeza todas las locuras...


Pedro Alvarez


Por una cabeza todas las locuras,
tu boca que besa borra la tristeza, calma la amargura,
por una cabeza si ella me olvida
que importa perderme mil veces la vida, para que vivir.


Alfredo Le Pera

quarta-feira, julho 19, 2006

Do teu corpo...


Antoine de Villiers

Percorro do teu corpo os templos todos
as colunas ... os áticos ... as fontes

Como se de romagem fosse a Roma


David Mourão Ferreira

Os sonhos que desfolho...

...

Marc Chagal

Sempre no sonho me sinto
Sempre no sonho me olho
Olho-me com ideias que pinto
Durmo com cores que escolho

Sempre no sonho pinto
Sempre no sonho olho
Olho com palavras que sinto
Escrevo as imagens que escolho

E pinto e escrevo e olho
E leio no sonho
As linhas que aqui ponho
Os sonhos que desfolho


Ecce Rui

Obrigada, pelo teu sonho. É belo!

Um beijo muito gordo. :)

segunda-feira, julho 17, 2006

Sonhei comigo

...
Gustav Klimt

Sonhei comigo
esta noite
Vi-me ao comprido
Deitada
Tinha estrelas
nos cabelos
em meus olhos
madrugadas
Sonhei comigo
esta noite
como queria
ser sonhada
Senti o calor da mão
percorrendo uma guitarra
De longe vinha um gemido
uma voz desabalada
Havia um campo
de trigo
um sol forte
me abrasava.
E acordei
meio sonhando
procurando
me encontrar
Quando me vi
ao espelho
era teu
o meu olhar.

Eugénia Tabosa

domingo, julho 16, 2006

Quantos ais...

....

Toulouse-Lautrec

Ele sabe dos caminhos dessa minha terra
No meu corpo se escondeu, minhas matas percorreu
Os meus rios, os meus braços
Ele é o meu guerreiro nos colchões de terra
Nas bandeiras, bons lençóis
Nas trincheiras, quantos ais, ai

Cala a boca - olha o fogo!
Cala a boca - olha a relva!
Cala a boca, Bárbara

Ele sabe dos segredos que ninguém ensina
Onde guardo o meu prazer, em que pântanos beber
As vazantes, as correntes
Nos colchões de ferro ele é o meu parceiro
Nas campanhas, nos currais
Nas entranhas, quantos ais, ai

Cala a boca - olha a noite!
Cala a boca - olha o frio!
Cala a boca, Bárbara

Chico Buarque

quinta-feira, julho 13, 2006

Silêncios...

Shwidkiy Andrey


São tantos
os silêncios da fala
De sede
De saliva
De suor

Silêncios de sílex
no corpo do silêncio

Silêncios de vento
de mar
e de torpor

De amor
Depois, há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor.



Maria Teresa Horta

segunda-feira, julho 10, 2006

Sonho...

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Chagall

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.

Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...



Mário Quintana

sábado, julho 08, 2006

Aqui me sentei quieta...

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Modigliani
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Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos

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Sophia de Mello Breyner

sábado, julho 01, 2006

Espera...

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Louis Icart.
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Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo

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Mário de Sá-Carneiro....