quinta-feira, novembro 30, 2006

No país dos sacaninhas

...

? - influence of satan

Dêem-me um sacana à moda antiga
Como nos filmes de outras eras
Quando a sacanice se vestia e assumia
E olhando-os se reconhecia e temia fato e sacana.
Hoje só existem sacaninhas
Betinhos com caras de sonsos
Vozes delicadas
Boas maneiras
Aprumados
Bem-educados
Bem vestidos
E bem comportados
Frágeis como donzelas
Usam tretas freudianas à lapela
Não são filhos da puta
São filhinhos da mamã.
Até na sacanice este país se tornou pequeno
Apoucado
Mesquinho
Medíocre
Desgraçado
Temos os sacanas que merecemos.
Ah ...
Quem dera um sacana à moda antiga
E não estes piolhos que por aí pululam
Com sacanices iguais
Normalizadas
Que só fazem comichão não dão tesão
Tão frágeis
Tão indefesos
Tão pequeninos
Que se teme que se quebrem e se partam
Se levarem uma sacudidela
Ou uma simples lambada.


Encandescente - Palavras Mutantes

Imagem in:
http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendid=23755810

segunda-feira, novembro 27, 2006

Poema

...
Mário Cesariny


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto... tão perto... tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

sábado, novembro 25, 2006

este oferecer-se de dentro...

..
Gustav Klimt - Fulfillment


Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém.


António Gedeão



Rui de Sousa - caricatura de António Gedeão in:
http://desenhosdorui.blogs.sapo.pt/tag/caricaturas

quarta-feira, novembro 22, 2006

o meu amigo está longe... (Cantiga de amigo)

...
Pablo Picasso


Nem um poema nem um verso nem um canto
tudo raso de ausência tudo liso de espanto
e nem Camões Virgílio Shelley Dante

- o meu amigo está longe
e a distância é bastante.

Nem um som nem um grito nem um ai
tudo calado todos sem mãe nem pai
Ah não Camões Virgílio Shelley Dante!

- o meu amigo está longe
e a tristeza é bastante.

Nada a não ser este silêncio tenso
que faz do amor sozinho o amor imenso.
Calai Camões Virgílio Shelley Dante

- o meu amigo está longe
e a saudade é bastante!


Ary dos Santos

terça-feira, novembro 07, 2006

O Meu Amor

...
Maria Amaral


O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele inteira fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada, ai

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes, ai

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita, ai

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz


Chico Buarque/1977-1978
Para a peça Ópera do Malandro

sexta-feira, novembro 03, 2006

Hás-de chegar

...

René Magritte

Como tudo
Hás-de chegar com o corpo
Encostado ao rosto
Da cidade.
Com teus olhos
Decididamente tristes
Vens tomar a minha mão
Dar-lhe o gosto das cerejas
E levá-la ao teu
Mais secreto descaminho.
Hás-de chegar
Nas asas do silêncio
Tão mansa como a tarde
Que se esvai
Entornando sobre o chão
O perfil agudo das paredes.
Chegas hoje ou amanhã
Quem sabe?
Hás-de chegar de surpresa
Como sempre
Desviando o sentido dos relógios
E pedindo que o desejo
Se vista de veludo.
(prefiro cetim)

José Fanha

quinta-feira, novembro 02, 2006

Eu vi quando você me viu...

...
Maria Amaral



Eu vi quando você me viu
Seus olhos pousaram nos meus
Num arrepio sutil
Eu vi... pois é, eu reparei
Você me tirou pra dançar
Sem nunca sair do lugar
Sem botar os pés no chão
Sem música pra acompanhar

Foi só por um segundo
Todo o tempo do mundo
E o mundo todo se perdeu

Eu vi quando você me viu
Seus olhos buscaram nos meus
O mesmo pecado febril
Eu vi... pois é, eu reparei
Você me tirou todo o ar
Pra que eu pudesse respirar
Eu sei que ninguém percebeu
Foi só você e eu

Foi só por um segundo
Todo o tempo do mundo
E o mundo todo se perdeu
Ficou só você eu eu

Quando você me viu...


Letra: Cláudio Lins
Interpretação: Maria Rita

quarta-feira, novembro 01, 2006

Olha-me de novo


Toulouse Lautrec


Se te pareço nocturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei.
E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.


Hilda Hilst