página em branco

Uma página para encher de palavras bonitas e de cores do arco-iris

Sexta-feira, Maio 01, 2009

Madrugada

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in: redehumanizasus.net/node/1354
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Dos que morreram sem saber porquê
Dos que teimaram em silêncio e frio
Da força nascida do medo
Da raiva à solta manhã cedo
Fazem-se as margens do meu rio.
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Das cicatrizes do meu chão antigo
E da memória do meu sangue em fogo
Da escuridão a abrir em cor
De braço dado e a arma flor
Fazem-se as margens do meu povo
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Canta-se a gente que a si mesma se descobre
E acordem luzes arraiais
Canta-se a terra que a si mesma se devolve
Que o canto assim nunca é demais
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Em cada veia o sangue espera a vez
Em cada fala se persegue o dia
E assim se aprendem as marés
Assim se cresce e ganha pé
Rompe a canção que não havia
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Acordem luzes nos umbrais que a tarde cega
Acordem vozes, arraiais
Cantam despertos na manhã que a noite entrega
Que o canto assim nunca é demais
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Cantem marés por essas praias de sargaços
Acordem vozes, arraiais
Corram descalços rente ao cais, abram abraços
Que o canto assim nunca é demais
O canto assim nunca é demais
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Letra e música: José Luís Tinoco
Interpretado por: Duarte Mendes

Terça-feira, Abril 28, 2009

Esperança...

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René Magritte
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Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade
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Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.
Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?
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Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
prometeengana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.
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Almada Negreiros

Sábado, Abril 25, 2009

Sonho de liberdade...

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Curtis Verdun - the dance of good and evil
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Liberdade esta palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda.
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Cecília Meireles
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No teu poema

existe a esperança acesa atrás do muro,
existe tudo o mais que ainda escapa
e um verso em branco à espera de futuro.
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José Luís Tinoco
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Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia

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Almada Negreiros

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

Quantos seremos?

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Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
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Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
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E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.
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Miguel Torga

Domingo, Janeiro 04, 2009

Blowin' In The Wind

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How many roads must a man walk down
Before you call him a man?
Yes, 'n' how many seas must a white dove sail
Before she sleeps in the sand?
Yes, 'n' how many times must the cannon balls fly
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.
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How many times must a man look up
Before he can see the sky?
Yes, 'n' how many ears must one man have
Before he can hear people cry?
Yes, 'n' how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.
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How many years can a mountain exist

Before it's washed to the sea?
Yes, 'n' how many years can some people exist
Before they're allowed to be free?
Yes, 'n' how many times can a man turn his head,
Pretending he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.
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Bob Dylan (Madison Square Garden NY 1971)

Terça-feira, Dezembro 23, 2008

Bom Natal para todos

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(?)
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As crianças viravam as folhas
dos dias enevoados
e da página do Natal
nasciam momentos prateados
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da infância. Intérmina, a mãe
fazia o bolo unido e quente
da noite na boca das crianças
acordadas de repente.
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Torres e ovelhas de barro
que do armário saíam
para formar a cidade
onde o menino nascia.
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Menino pronunciado
como uma palavra vagarosa
que terminava numa cruz
e começava numa rosa.
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Natal bordado por tias
que teciam com seus dedos
estradas que então havia
para a capital dos brinquedos.
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E as crianças com tinta invisível
do medo de serem futuro
escreviam seus pedidos
no muro que dava para o impossível,
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chão de estrelas onde dançavam
a sua louca identidade
de serem no dicionário
da dor futura: saudade.
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Natália Correia

Domingo, Dezembro 21, 2008

Tejo

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Manuel Faia
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Madrugada,
Descobre-me o rio
que atravesso tanto
para nada,
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E este encanto,
prende por um fio,
é a testemunha do que eu sei dizer.
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E a cidade,
chamam-lhe Lisboa,
mas é só o rio
que é verdade,
só o rio,
é a casa de água,
casa da cidade em que vim nascer.
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Tejo, meu doce Tejo, corres assim,
corres há milénios sem te arrepender,
és a casa da água onde há poucos anos eu escolhi nascer.
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Letra: Pedro Ayres de Magalhães
Música: José Peixoto
Interpretado: Madredeus

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

Pequenos deuses caseiros

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Remedios Varo
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Pequenos deuses caseiros
que brincais aos temporais,
passam-se os dias, semanas,
os meses e os anos
e vós jogais, jogais
o jogo dos tiranos.
o jogo dos tiranos.
o jogo dos tiranos.
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Pequenos deuses caseiros
cantai cantigas macias
tomai vossa morfina,
perdulai vossos dinheiros
derramai a vossa raiva
gozai vossas tiranias,
pequenos deuses caseiros.
pequenos deuses caseiros.
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Erguei vossos castelos
elegei vossos senhores
espancai vossos criados,
violai vossas criadas,
e bebei,
o vinho dos traidores
servido em taças roubadas
servido em taças roubadas
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Dormi em colchões de pena,
dançai dias inteiros,
comprai os que se vendem,
alteai vossas janelas,
e trancai as vossas portas,
pequenos deuses caseiros,
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas.
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Sidónio Muralha
cantado por Manuel Freire

Terça-feira, Dezembro 16, 2008

becos...

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A vida bloqueada
instiga o teimoso viajante
a abrir nova estrada
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Helena Kolody

Domingo, Dezembro 14, 2008

caminhos...

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fios invisíveis
a aranha traça na teia
seu próprio caminho
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Jorge de Olinda (araraquara - 1985)

Sábado, Novembro 22, 2008

Nunca poderia durar...

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Pablo Picasso
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"... é impossível fundar uma civilização sobre
o medo, o ódio e a crueldade.
Nunca poderia durar."
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George Orwell

Quarta-feira, Novembro 19, 2008

do esquecimento...

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Ana Pardo (árbol del olvido)
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Num verso cabe a vida e o seu olvido.
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Luís Filipe de Castro Mendes

Terça-feira, Novembro 18, 2008

partir...

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Israel Zzepda
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a loucura de partir correndo,
pelo sonho dentro...
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Teolinda Gersão

Domingo, Novembro 16, 2008

tanto faz...

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Picasso
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Pode-se pintar com óleo
com petróleo
ou aguarrás
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Mas pode-se também pintar com lágrimas
silenciosas
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No desprezo das horas odiosas
tanto faz

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Mário Dionísio

Sábado, Novembro 08, 2008

esperança...

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Magritte
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neste espaço a si próprio condenado,
dum momento para o outro pode entrar
um pássaro que levante o céu
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Alexandre O'Neill

Terça-feira, Outubro 21, 2008

A mim quem me vence é o patrão

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Magritte
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Ali está o rio
Dois homens na margem estão
Se um dá um passo o outro hesita
Será um valente? O outro não?
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Bom negócio faz um deles
Tem o triunfo na mão
Do outro lado do rio
Só um come o fruto, o outra não
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Ao outro passo o p'rigo
Novos castigos virão
Se ambos venceram o rio
Só um tubo ganha o outro não
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Na margem já conquistada
Só um venceu a valer
Perdeu o outro a saúde
Mas nada ganhou pra viver
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Quem diz "nós" saiba ver bem
Se diz a verdade ou não
Ambos vencemos o rio
A mim quem me vence é o patrão
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Bertolt Brecht
Cantado por Zeca Afonso

Domingo, Outubro 19, 2008

Um que nos satisfaça ou justifique...

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?


Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.
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Pensando nos secamos e perdemos…



Ary dos Santos

Sexta-feira, Abril 25, 2008

canção para a unidade

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(roubado por aí...)


Há tanto tempo que eu a esperava
Nas noites longas das discussões
Clandestinas, prolongadas, eternos serões

Há tanto tempo que eu ansiava por ir cantar para a rua
Garganta nua sem espada apontada
Tanto tempo antevi a discutir e desejei
Tanto tempo sofri por tudo o que não disse e não cantei

Chamava-se ela Liberdade, Revolta, eu sei lá
Talvez justiça ou simplesmente Igualdade
E era como uma gaivota solta da gaiola da cidade

E ei-la que chegou esperada e alegre
Numa madrugada triunfal
Durante uns tempos ´inda se chamou Revolução, hum!
E tinha a palavra aberta e a mão na mão, lembram-se?
Tinha a palavra aberta e a mão na mão

Depois teve nomes, baptismos e crismas
Foi, foi a transição para…
Foi, foi também como sabem… a via original
Surgiram os ventos, surgiram os cismas
Ventos de través, ventos de través na nau de Portugal

E que vejo eu?
É preciso voltar a combater pela verdade
É preciso voltar a perceber o que é a unidade

Quando um povo se ergue e pergunta como é?
Alguém vai tremer
É preciso é unir esse povo
E ousar lutar, ousar vencer
E lembrarmo-nos de novo
Que há tanta coisa para fazer

Pela unidade popular é preciso é juntar esse povo,
E ousar lutar, ousar vencer
E lembrarmo-nos de novo
Que há tanta coisa para fazer



Poema e música de Pedro Barroso

Quinta-feira, Abril 17, 2008

Demagogia

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Livia Alessandrini - Archeologia della mente
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Dão nas vistas em qualquer lugar
Jogando com as palavras como ninguém
Sabem como hão-de contornar
As mais directas perguntas
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Aproveitam todo o espaço
Que lhes oferecem na rádio e nos jornais
E falam com desembaraço
Como se fossem formados em falar demais
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Demagogia feita à maneira
É como queijo numa ratoeira
P’ra levar a água ao seu moinho

Têm nas mãos uma lata descomunal
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Prometem muito pão e vinho
Quando abre a caça eleitoral
Desde que se vêem no poleiro

São atacados de amnésia total
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Desde o último até ao primeiro
Vão-se curar em banquetes, numa social
Demagogia feita à maneira

É como queijo numa ratoeira
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Letra e música de Luís Pedro Fonseca

Álbum Perto de ti, Lena d’Água 1982

Segunda-feira, Março 31, 2008

Há dias

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Castro Almeida
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Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer:
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.
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Eugénio de Andrade

Sexta-feira, Março 21, 2008

quem me roubou o tempo?

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Salvador Dali
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quem me roubou o tempo que era um
quem me roubou o tempo que era meu
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo se escrevia
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Sophia de Mello Breyner

Domingo, Dezembro 16, 2007

Carta para o Pai Natal

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Talvez aches os pedidos meio extravagantes

Queria que pusesses juízo na cabeça destes governantes

Tira-lhes as armas e a vontade da Guerra

É que senão acabamos a pedir-te uma nova terra

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Ao sem-abrigo indigente, dá-lhe uma vida decente

E arranja-lhe trabalho em vez de mais uma sopa quente

E ao pobre coitado e ao desempregado

Arranja-lhe um emprego em que ele nao se sinta explorado

E ao soldado, manda-o de volta pa junto da mulher

Acredita que é isso que ele quer

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Vai ver África de perto, não vejas pelos jornais

Dá de comer às crianças, ergue escolas e hospitais

Cura as doenças e distribui vacinas

Dá carrinhos aos meninos e bonecas às meninas

E dá-lhes paz e alegria

Ao idoso sozinho em casa, arranja-lhe boa companhia

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Já sei que só ofereçes aos meninos bem comportados

Mas alguns portam-se mal e dás condomínios fechados

Jatos privados, carros topo de gama importados

Grandes ordenados, apagas pecados a culpados

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E já agora para acabar, sem querer abusar

Dá-nos paz e amor e nem é preciso embrulhar

Muita felicidade, saúde acima de tudo

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Boss AC

Sábado, Dezembro 15, 2007

Scent of a Woman

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um poema em movimento...

Sábado, Dezembro 08, 2007

horizonte vazio

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?
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Horizonte vazio em que nada resta
Dessa fabulosa festa
Que um dia te iluminou.
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As tuas linhas outrora foram fundas e vastas,
Mas hoje estão vazias e gastas
E foi o meu desejo que as gastou.
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Era do pinhal verde que descia
A noite bailando em silenciosos passos,
E naquele pedaço de mar ao longe ardia
O chamamento infinito dos espaços.
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Nos areais cantava a claridade,
E cada pinheiro continha
No irreprimível subir da sua linha
A explicação de toda a heroicidade.
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Horizonte vazio, esqueleto do meu sonho,
Árvore morta sem fruto,
Em teu redor deponho
A solidão, o caos e o luto.
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Sophia de Mello Breyner

Sexta-feira, Novembro 30, 2007

Porque está de volta...

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Mario Henrique Leiria


Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
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Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
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Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça
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Sophia de Mello Breyner

Segunda-feira, Novembro 26, 2007

navio de espelhos

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Mário Cesariny
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O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os amadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

E no mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ála
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo
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Mário Cesariny

Sexta-feira, Novembro 23, 2007

A gente se acostuma... mas não devia

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Mercedes Naveiro


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
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E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
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A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
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A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
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A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
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E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.
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A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.
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As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.
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Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
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Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
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Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
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A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.
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Marina Colasanti

Domingo, Novembro 18, 2007

direi como do corpo a música se extrai...

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Gustav Klimt
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Orquestra, flor e corpo:
doravante direi
como do corpo a música se extrai,
como sem corpo a flor não tem perfume,
como de corpo a corpo o som se repercute.
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Orquestra, sim: orquestra. E flor. E noite.
Doravante dizendo orquídea negra
é logo o violoncelo nomeado;
e logo, logo, os instrumentos de arco
arremessando vão a flecha ao alvo;
e é logo o alvo peito;
e é logo amor,
e é logo a noite
murmurando «Até logo!» à outra noite. . .
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De corpo a corpo a noite se transmite.
Orquestra, sim: orquestra. E flor. E vaga.
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E a noite é sempre o corpo anoitecido,
e o corpo é sempre a noite que se aguarda.
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De corpo a corpo o som se repercute,
de vale em vale,
de monte a monte,
de címbalo, de cítara, et coetera,
ao tímpano sensível que o recebe.
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Sem concha do ouvido,
o mar não tem rumor.
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Sem asa do nariz,
não voa a maresia.
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E o mundo só é mundo enquanto houver o corpo,
de música e de flor universal medida.
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David Mourão-Ferreira

Domingo, Novembro 11, 2007

Sou um funcionário cansado

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Frantisek Kupka
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A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.
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António Ramos Rosa

Sábado, Novembro 10, 2007

Ai!... os ais deste país!

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Photographer Matt Mueller -
Painting in room 1414 of the Ascott Metropolis Hotel
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Os ais de todos os dias
os ais de todas as noites
ais do fado e do folclore
o ai do ó ai ó linda
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Os ais que vêm do peito
. . . ai pobre dele coitado
. . . que tão cedo se finou
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Os ais que vêm da alma

ais d'amor e de comédia
. . . ai pobre da rapariga
. . . que se deixou enganar
. . . ai a dor daquela mãe
.
Os ais que vêm do sexo

os ais do prazer na cama
os ais da pobre senhora
agarrada ao travesseiro
. . . ai que saudades saudades
os ais tão cheios de luto
da viúva inconsolável
.
Ai pobre daquele velhinho

. . . ai que saudades menina
. . . ai a velhice é tão triste
.

Os ais do rico e do pobre
. . . ai o espinho da rosa
os ais do António Nobre
ais do peito e da poesia
e os ais doutras coisas mais
. . . ai a dor que tenho aqui
. . . ai o gajo também é
. . . ai a vida que tu levas
. . . ai tu não faças asneiras
. . . ai mulher és o demónio
. . . ai que terrível tragédia
. . . ai a culpa é do António
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Ai os ais de tanta gente
. . . ai que já é dia oito
. . . ai o que vai ser de nós
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E os ais dos liriquistas

a chorar compreensão
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Ai que vontade de rir
E os ais do D. Dinis
. . . ai Deus e u é
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Triste de quem der um ai

. . . sem achar eco em ninguém
Os ais da vida e da morte

ai os ais deste país
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Mendes de Carvalho