terça-feira, outubro 09, 2012

Os senhores da guerra

.


















Diego Rivera


Lá fora estão os senhores da guerra
E cantam já hinos de vitória
Qual é a história desta terra?
É o medo, ali mesmo
Cá dentro estão os homens á espera
Unidos no destino da terra
Já não há memória, de paz na terra
É o medo, ali mesmo
Ó terra, mais um dia a nascer
Ai, é menos um dia a morrer
É tão pouca a gloria duma guerra
E os homens que as fazem sem vitórias
Já não há memória, de paz na terra
É o medo, ali mesmo


Música: Francisco Ribeiro
Letra: Pedro Ayres Magalhães; Francisco Ribeiro
Madredeus - in: Espírito da Paz

quarta-feira, setembro 26, 2012

Epígrafe para a arte de furtar

.
(encontrado na net)


Roubam-me Deus
outros o diabo
- quem cantarei?
.
Roubam-me a Pátria
e a humanidade
outros ma roubam
- quem cantarei?

Sempre há quem roube
quem eu deseje
e de mim mesmo
todos me roubam
- quem cantarei?

Roubam-me a voz
quando me calo
ou o silêncio
mesmo se falo
- aqui d'El-Rei!


Jorge de Sena 3/6/1952
(interpretado por Zeca Afonso)

quinta-feira, setembro 06, 2012

Um sonho cego a nada

.
Remedios Varo


Prometemos
que teríamos em comum
não sermos dois, apenas um
E que as nossas almas nuas
viciadas na bruma
não fossem duas
apenas uma.

Prometemos
um sonho para lá do aterro
um sonho sem medo
um sonho semente enraizada
um sonho sem ego
um sonho cego
a nada.

Um sonho
um sonho apenas
só um
um sonho sem penas
apenas um
um sonho
realizado por nenhum.


Paulo Anes

segunda-feira, agosto 20, 2012

Uns aos outros nos acusamos...

.
(encontrado na net)


Pelos caminhos da noite
nos perdemos
sem memória nem futuro.
Uns aos outros nos acusamos
sem esperança no que somos
nem lembrança do que fomos.
Uns aos outros nos acusamos
sem força para determos
as ondas trevas que nos levam
à beira mar da morte


José Adelino Maltez  in O silêncio e a Revolta

segunda-feira, agosto 13, 2012

caixa de recordações

.
Alexej Ravski


Dúzias de pregos soltos,
três alfinetes de fralda
pra servir de desmazelo.
Um rolo de fita isolante,
que nem teve serventia.
seis retratos 3x4, fora
o do relicário de prata,
que não é meu, com mentira
escrita no verso. Em prosa.
Desarrumadas lembranças,
uma carta de amor,
três de baralho:
um rei de pau,
uma dama de quatro,
um ás de ouro puro
erro de cartomante.
Uma chave de fenda,
uma calcinha de renda,
uma clave de lua,
pena de passarinho,
asa de borboleta,
raiozinho de sol.
Minhas caixinhas de música,
conchinhas, tantos mares,
minha coleção de pedras,
meu colar de pérolas
e aquele salto alto,
que nunca foi lá.
Dois espelhos, sete chaves
e nenhuma abre a algema.
Uma faca desafiada
por um pulso sem coragem,
uma tesoura sem ponta,
assustando velhos papéis.
Um missal de madrepérola,
um santinho de São Jorge
assassinando o dragão
com um canivete suíço.
Três segredos tão sufocados
no amarrado da fita amarela.
Um soluço, a última ilusão.
Todos os versos que teimei,
todas as bugigangas que juntei,
todos os parafusos que perdi
e quase esquecido, de lado,
escondido entre rimas rasgadas,
um martelo torto e sem cabo
de tanto bater na saudade.


Silvana Guimarães

sexta-feira, julho 27, 2012

Congresso Internacional do Medo

.
Maynard Dixon


Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,

depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas


Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, julho 23, 2012

Quem nos rouba a honra...

.
Maynard Dixon


Quem nos rouba a honra
não fica mais rico e
deixa-nos irremediavelmente pobres


Shakespeare em “Othelo”

sexta-feira, julho 20, 2012

The reason...

.
Leslie Lee


The reason
there are so few female politicians
is that it is too much trouble to put makeup on two faces


Maureen Murphy

terça-feira, julho 17, 2012

ensina a cada alma a sua rebeldia...

.
Konstantin Bessmertny


Canta, poeta canta!
Violenta o silêncio conformado
Cega com outra luz a luz do dia
Desassossega o sossegado
Ensina a cada alma a sua rebeldia


Miguel Torga

sexta-feira, julho 06, 2012

Ai, Aurora! Traidora!

.
Pierre Auguste Renoir


Ai que vida mais triste! Ando mesmo abatido,
Vi hoje a minha amante nos braços do marido,
Já não quero viver, após tal decepção
E ando mesmo a poupar p'ra comprar um caixão.
Ai, Aurora! Traidora!

Já não tenho palavras, fiquei sem argumentos,
Ela quer abusar dos meus bons sentimentos.
Abraçada àquele tipo diante de mim,
Perante tal ultraje, isto não fica assim.
Ai, Aurora! Traidora!

Eu nem sei que fazer neste mundo malvado,
Já se diz por aí: «O Lulu é veado»
E p'ra me chatear, disse-me ela uma vez:
«O mais corno dos dois, não é aquele que tu crês!»
Ai, Aurora! Traidora!

Mas que raio me deu, p'ra não desconfiar,
Da enorme traição que pairava no ar,
Porque os filhos que tem, fui eu quem os quis,
O que há dias nasceu, não tem o meu nariz.
Ai, Aurora! Traidora!

Se te apanho outra vez nessa pouca vergonha,
Ai que não me contenho, dou-te cabo da fronha.
Escolher o marido p'ra enganar o amante.
É levar o adultério ao ponto culminante.
Ai, Aurora! Traidora!


Poesia e Música - Georges Brassens
Adaptação e Interpretação - Luís Cília

quinta-feira, julho 05, 2012

Quem tira de mim esta saudade?

.
Remedios Varo


Quem tira de mim esta saudade?
dentro de mim vive
na serenidade
de tê-la tão minha

Não nasci de certezas
e também nunca as encontrei
delas não tenho as saudades
e não as quero também

Flutuo na realidade
sem a conhecer
vejo-a demais
e não a quero também

Saudades tenho
do que imaginei que fosse o mundo
na minha bicicleta
solta sem caminho
queria continuar a acreditar
que assim era
numa solidão de doçura


Constança Lucas

terça-feira, julho 03, 2012

Somos memória e responsabilidade...

.
Liu Yaming


Somos a memória que temos
e a responsabilidade que assumimos.
Sem memória não existimos,
sem responsabilidade
talvez não mereçamos existir.


José Saramago

sábado, junho 30, 2012

a alta finança só trabalha para si própria...

... o país e o povo não lhe interessam para nada, são apenas um meio para!

.
George Grosz


Mandadores de alta finança
fazem tudo andar p'ra traz
Dizem que o mundo só anda
tendo á frente um capataz


José Afonso in Indíos da Meia-Praia

sexta-feira, junho 29, 2012

Ignorantes?... Indiferentes?...

Não percebem que os reis vão nus?

.
O rei vai nu - ?


Só a ignorância aceita
e a indiferença tolera
o reinado da mediocridade.


José de Alencar

quarta-feira, junho 27, 2012

Ganharás o pão com o suor do teu rosto e não com o suor do dos outros

.
We have kaos in the garden


"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão"

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem


Sophia de Mello Breyner

sábado, junho 23, 2012

Desporto e Pedagogia...

Ética (ou falta dela...), Política e o "Zé" bem distraído...

.
adidas - futebol-religião - "fresco" na Central Station de Cologne


Diz ele que não sei ler
Isso que tem? Cá na aldeia
Não se arranjam dúzia e meia
Que saibam ler e escrever.

P'ra escolas não há bairrismo,
Não há amor nem dinheiro.
Por quê? Porque estão primeiro
O Futebol e o Ciclismo!

Desporto e pedagogia
Se os juntassem, como irmãos,
Esse conjunto daria,
Verdadeiros cidadãos!
Assim, sem darem as mãos,
O que um faz, outro atrofia.

Da educação desportiva,
Que nos prepara p'ra vida,
Fizeram luta renhida
Sem nada de educativa.

E o povo, espectador em altos gritos,
Provoca, gesticula, a direito e torto,
Crendo assim defender seus favoritos
Sem lhe importar saber o que é desporto.

Interessa é ganhar de qualquer maneira.
Enquanto em campo o dever se atropela,
Faz-se outro jogo lá na bilheiteira,
Que enche os bolsinhos aos que vivem dela.

Convém manter o Zé bem distraído
Enquanto ele se entrega à diversão,
Não pode ver por quantos é comido
E nem se importa que o comam, ou não.

E assim os ratos vão roendo o queijo
E o Zé, sem ver que é palerma, que é bruto,
De vez em quando solta o seu bocejo,
Sem ter p'ra ceia nem pão, nem conduto.


António Aleixo

quarta-feira, junho 20, 2012

A morte não é um bem

.
Sir James Thornhill


A morte não é um bem,
Os próprios deuses o sabem.

Eles preferiram viver…


Safo (séc. VI a. C.)
trad. de David Mourão-Ferreira

segunda-feira, junho 18, 2012

Luz

.
Emiliano Di Cavalcanti


tua mão na minha
acendia as minhas veias
meus olhos viam além das paredes
mas tropecei nos teus braços
bêbada de luz.


Ivone Vebber

sábado, junho 16, 2012

passando dos cinquenta...

.

Justyna Kopania


Meu pescoço se enruga.
Imagino que seja
de mover a cabeça
para observar a vida.
E se enrugam as mãos
cansadas dos seus gestos.
E as pálpebras
apertadas no sol.
Só da boca não sei
o sentido das rugas
se dos sorrisos tantos
ou de trancar os dentes
sobre caladas coisas.


Marina Colasanti 

terça-feira, junho 12, 2012

O dia da caça e do caçador

.
Kurt Wenner


Onde caça e caçador se entendem,
se estendem, se rendem
se entregam, se integram,
arfando escorregam,
se interpenetram,
caça e caçador se caçam,
se cansam, se abrasam,
maturando-se mergulham
e nos suores soçobram
e tombando, alados, se abrandam.


Olga Savary

quinta-feira, junho 07, 2012

Rio do Esquecimento

.
?


Rio do génio perdido no labirinto do espanto,
Das faces no gelo de olhos caídos
Na solidão de um olhar, sonhos diluídos
Esculturas do desejo demolidas em pranto.

Olhos em vitrais de mágoa ferida,
Olhos máscaras do sonho extinto,
É um acordar onde ainda te sinto,
Loucura ardente, gargalhadas de vida.

Um ser místico, um eu vagabundo,
Neblina leve que se esfuma no cais.
Ó delírio secreto diz-me onde vais?
Vã tentativa de agarrar o meu mundo.


Paulo Anes

sexta-feira, maio 25, 2012

entre o mar, a areia e o sol

.
                                     








Podemos chorar porque te foste,                                      
ou sorrir porque viveste.

Podemos fechar os olhos e rezar para que voltes,
ou abrir os olhos e ver tudo o que nos deixaste                  

O nosso coração pode estar vazio porque não te pode ver,
ou estar cheio do amor que compartilhámos.

Podemos virar costas ao amanhã e viver no ontem,
ou sermos felizes para o amanhã por causa do ontem.

Podemos lembrarmo-nos de ti só porque te foste,
ou engrandecermos a tua memória e viver com ela.

Podemos chorar e fechar a nossa mente,
ficar vazios e virar costas à vida,
ou podemos fazer o que tu querias:
sorrir, abrir os olhos, amar e seguir em frente

sempre com o que partilhámos no nosso coração.


Libertamos-te
entre o mar, a areia e o sol
Libertamos-te
para a dança dos astros e dos planetas
Libertamos-te
nas mãos do fazedor de estrelas e no sopro do vento.

Amamos-te e sentimos muito a tua falta mas queremos-te feliz.
Vai em segurança, vai dançando no vento, vai para casa.

Vai, vai com todo o nosso amor.



tradução/adaptação livre dos poemas:

"You can shed tears that she is gone" by David Harkins
and
"Responses for a Cremation" by Ruth Burgess

Fotografias pessoais

Quando eu morrer...

.

     
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Esta praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.



                                                            
 
 






Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim                                               
A tua beleza aumenta quando estamos sós.        
E tão fundo, intimamente, a tua voz                        
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
 

 
                                   
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.


 
 
 
 
 
 
 




Sou eu, ainda, quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa







              



                               Quando eu morrer voltarei para buscar
                               Os instantes que não vivi junto do mar


          


Versos de Sophia Mello Breyner
Fotografias pessoais