sábado, março 05, 2011

As aves levantam contra o vento




“Que farás quando vieres a descobrir que a febre que te moveu, e tomaste por verdade indiscutível, nunca passou a fronteira do sonho? Que vais tu fazer ao dar-te conta de que o teu país voltou à embriaguez antiga, dos milagres trazidos pelo vento que há-de chegar da Europa? À mesma corrompida cupidez, à rudíssima e torpe ignorância, à mesma fidalguia de fachada, à fatal temeridade? Que farás ao observar, após tanto sobressalto, que Portugal adormeceu de novo, num sono ainda mais profundo?”

Jorge Carvalheira


Entrou voando pelo sonho adentro.
Voava tão alto que não se apercebeu que muito poucos tinham descolado e que, mesmo desses, a maioria, não tinha largado as amarras.
Não se apercebeu de que apesar de Abril ter sido sonho de muitos, foi conquista de poucos e interiorização de muitos menos.
Não se apercebeu de que a liberdade é um sentimento que tem que vir de dentro. De que o que estava em causa era uma liberdade dada, emprestada, não adquirida, não assumida, não nascida em cada um. Não soube que, perante uma liberdade assim, a maioria não a saberia viver, não a saberia defender. Por isso não soube que os velhos medos ainda gritavam mais alto e que o peso do poder, do dinheiro e de interesses antigos continuariam a ser os mandantes.
Também não percebeu que o sonho se tinha começado a desfazer no preciso momento em que estava a nascer: - “um capitão?! não posso deixar cair o poder no chão” - “vão lá buscar o general do olho de vidro”.  E foram!...
Voava mais alto do que tudo isto e só via a beleza do que havia sido conquistado naquela madrugada e que, mais do que tudo, queria preservar; tão alto que o sonho se desmanchou e “entrou a voar pelo chão dentro” como já lhe acontecera de outra vez. Só que desta vez não “partiu a cara”, partiu a alma.

E, ao remendá-la, soube tudo isto, e, percebeu, também, este Portugal que nunca soube, não sabe e, dificilmente, virá a saber ser um país.

E, de todo este saber, narrando-se,  fez, numa soberba obra de literatura (ah! como eu gostava de saber escrever assim), o mais cáustico e mais belo relato, que me foi dado ler, sobre a incongruência deste país que vagueia, eternamente, entre uma meninice birrenta e uma adolescência imatura, sem nunca se tornar adulto; deste país que, bastas vezes, teve ventos a favor para levantar voo, mas teima em ficar, orgulhosa e teimosamente do lado contrário da pista, levantando e “borregando”, levantando e “borregando”, ad nauseam; deste país que sobrevive na arrogância despótica de uns e na subserviência de outros; deste país incapaz de se bastar a si próprio, vítima de uma autofagia insana.


Maria Ema