domingo, novembro 18, 2007

direi como do corpo a música se extrai...

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Gustav Klimt
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Orquestra, flor e corpo:
doravante direi
como do corpo a música se extrai,
como sem corpo a flor não tem perfume,
como de corpo a corpo o som se repercute.
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Orquestra, sim: orquestra. E flor. E noite.
Doravante dizendo orquídea negra
é logo o violoncelo nomeado;
e logo, logo, os instrumentos de arco
arremessando vão a flecha ao alvo;
e é logo o alvo peito;
e é logo amor,
e é logo a noite
murmurando «Até logo!» à outra noite. . .
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De corpo a corpo a noite se transmite.
Orquestra, sim: orquestra. E flor. E vaga.
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E a noite é sempre o corpo anoitecido,
e o corpo é sempre a noite que se aguarda.
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De corpo a corpo o som se repercute,
de vale em vale,
de monte a monte,
de címbalo, de cítara, et coetera,
ao tímpano sensível que o recebe.
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Sem concha do ouvido,
o mar não tem rumor.
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Sem asa do nariz,
não voa a maresia.
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E o mundo só é mundo enquanto houver o corpo,
de música e de flor universal medida.
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David Mourão-Ferreira

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