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quarta-feira, junho 20, 2012

A morte não é um bem

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Sir James Thornhill


A morte não é um bem,
Os próprios deuses o sabem.

Eles preferiram viver…


Safo (séc. VI a. C.)
trad. de David Mourão-Ferreira

sábado, dezembro 24, 2011

Natal

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Hoje foi o teu primeiro, Nicinha...
.........................................           e a saudade já é imensa...
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                                        postal antigo encontrado na net



Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio


David Mourão-Ferreira

terça-feira, outubro 11, 2011

temos cinco sentidos...




Julie Del Ama


Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.

- Como quereis o equilíbrio?


David Mourão-Ferreira

domingo, novembro 18, 2007

direi como do corpo a música se extrai...

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Gustav Klimt
.
.
Orquestra, flor e corpo:
doravante direi
como do corpo a música se extrai,
como sem corpo a flor não tem perfume,
como de corpo a corpo o som se repercute.
.
Orquestra, sim: orquestra. E flor. E noite.
Doravante dizendo orquídea negra
é logo o violoncelo nomeado;
e logo, logo, os instrumentos de arco
arremessando vão a flecha ao alvo;
e é logo o alvo peito;
e é logo amor,
e é logo a noite
murmurando «Até logo!» à outra noite. . .
.
De corpo a corpo a noite se transmite.
Orquestra, sim: orquestra. E flor. E vaga.
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E a noite é sempre o corpo anoitecido,
e o corpo é sempre a noite que se aguarda.
.
De corpo a corpo o som se repercute,
de vale em vale,
de monte a monte,
de címbalo, de cítara, et coetera,
ao tímpano sensível que o recebe.
.
Sem concha do ouvido,
o mar não tem rumor.
.
Sem asa do nariz,
não voa a maresia.
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E o mundo só é mundo enquanto houver o corpo,
de música e de flor universal medida.
.
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David Mourão-Ferreira

quarta-feira, maio 16, 2007

corpoema

...

Maria Amaral


Das sílabas a espátula
começa pouco a pouco

a modelar-te em alma
o que era apenas corpo

De sílabas a estátua
De lâminas o sopro

O que era apenas alma
volve-se agora corpo



David Mourão Ferreira

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Mas havia todo o teu corpo a desmenti-lo...

...

Pierre-August Renoir


Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono... Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará...)


E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo...


Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto...
Agora, nu, será feliz,
sob o afago do sol-posto...

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo...?
Seria Outono...
Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.


David Mourão-Ferreira

domingo, janeiro 07, 2007

era a mão de ninguém no meu cabelo...

...

Claude Monet


Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa
brava...

Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martirio
de São Sebastião, de Debussy....
Era, na jarra, de repente, um lirio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...


David Mourão-Ferreira

sexta-feira, dezembro 08, 2006

blocos de gelo...

....
Bert Geer Phillips


Blocos

É isto vivemos dentro
de grandes blocos de gelo
sem aquecermos ao menos
com os dedos outros dedos
No fundo de nós temendo
que um dia se quebre o gelo

David Mourão-Ferreira

terça-feira, setembro 19, 2006

Entrega...

...
Vladimir Kim

É quando estás de joelhos
que és toda bicho da Terra
toda fulgente de pêlos
toda brotada de trevas
toda pesada nos beiços
de um barro que nunca seca
nem no cântico dos seios
nem no soluço das pernas
toda raízes nos dedos
nas unhas toda silvestre
nos olhos toda nascente
no ventre toda floresta
em tudo toda segredos
e de joelhos me entregas
sempre que estás de joelhos
todos os frutos da Terra.



David Mourão Ferreira

sábado, julho 29, 2006

Amantes do Tejo


David Lambeth


Barco Negro

De manhã, que medo, que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada n'areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o sol penetrou no meu coração.

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas:

São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz qu'estás sempre comigo.

No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo


David Mourão-Ferreira

segunda-feira, julho 24, 2006

Ternura

...
Maria Amaral


Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira

quarta-feira, julho 19, 2006

Do teu corpo...


Antoine de Villiers

Percorro do teu corpo os templos todos
as colunas ... os áticos ... as fontes

Como se de romagem fosse a Roma


David Mourão Ferreira