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quinta-feira, setembro 06, 2012

Um sonho cego a nada

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Remedios Varo


Prometemos
que teríamos em comum
não sermos dois, apenas um
E que as nossas almas nuas
viciadas na bruma
não fossem duas
apenas uma.

Prometemos
um sonho para lá do aterro
um sonho sem medo
um sonho semente enraizada
um sonho sem ego
um sonho cego
a nada.

Um sonho
um sonho apenas
só um
um sonho sem penas
apenas um
um sonho
realizado por nenhum.


Paulo Anes

quinta-feira, julho 05, 2012

Quem tira de mim esta saudade?

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Remedios Varo


Quem tira de mim esta saudade?
dentro de mim vive
na serenidade
de tê-la tão minha

Não nasci de certezas
e também nunca as encontrei
delas não tenho as saudades
e não as quero também

Flutuo na realidade
sem a conhecer
vejo-a demais
e não a quero também

Saudades tenho
do que imaginei que fosse o mundo
na minha bicicleta
solta sem caminho
queria continuar a acreditar
que assim era
numa solidão de doçura


Constança Lucas

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Pequenos deuses caseiros

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Remedios Varo
.
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Pequenos deuses caseiros
que brincais aos temporais,
passam-se os dias, semanas,
os meses e os anos
e vós jogais, jogais
o jogo dos tiranos.
o jogo dos tiranos.
o jogo dos tiranos.
.
Pequenos deuses caseiros
cantai cantigas macias
tomai vossa morfina,
perdulai vossos dinheiros
derramai a vossa raiva
gozai vossas tiranias,
pequenos deuses caseiros.
pequenos deuses caseiros.
.
Erguei vossos castelos
elegei vossos senhores
espancai vossos criados,
violai vossas criadas,
e bebei,
o vinho dos traidores
servido em taças roubadas
servido em taças roubadas
.
Dormi em colchões de pena,
dançai dias inteiros,
comprai os que se vendem,
alteai vossas janelas,
e trancai as vossas portas,
pequenos deuses caseiros,
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas.
.
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Sidónio Muralha
cantado por Manuel Freire

terça-feira, outubro 16, 2007

amor semeia a revolta (erguem-se muros)

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Remedios Varo
.
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Erguem-se muros em volta
do corpo quando nos damos
amor semeia a revolta
que nesse instante calamos
.Semeia a revolta e o dia
cobrir-se-á de navios (bis)
há que fazer-nos ao mar
antes que sequem os rios
.
Secos os rios a noite
tem os caminhos fechados (bis)
Há que fazer-nos ao mar
ou ficaremos cercados
.
Amor semeia a revolta
antes que sequem os rios...
.
.
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira
Música: Adriano Correia de Oliveira

Letra: António Ferreira Guedes

segunda-feira, julho 23, 2007

Quando é que será quando?

...

Remedios Varo
..

Quando é que o cativeiro
Acabará em mim?
E, próprio dianteiro,
Avançarei enfim?
.
Quando é que me desato
Dos laços que me dei?
Quando serei um facto?
Quando é que me serei?
.
Quando ao virar da esquina
De qualquer dia meu,
Me acharei alma digna
Da alma que Deus me deu?
.
Quando é que será quando?
Não sei. E até então
Viverei perguntando:
Perguntarei em vão.
..
Fernando Pessoa

quinta-feira, julho 19, 2007

e finjo que sou eu que vou...

...

Remedios Varo


A minha sombra sou eu,
ela não me segue, eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nascia
distância imutável de minha sombra a mim
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!


Almada Negreiros