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We have kaos in the garden
"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão"
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem
Sophia de Mello Breyner
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quarta-feira, junho 27, 2012
sexta-feira, maio 25, 2012
Quando eu morrer...
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Amo com um amor mais forte e mais profundo
Esta praia extasiada e nua,
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo, intimamente, a tua voz
E tão fundo, intimamente, a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
quarta-feira, maio 16, 2012
Novos ratos mostram a avidez antiga...
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George Grosz
Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos
Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga
Sophia de Mello Breyner
George Grosz
Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos
Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga
Sophia de Mello Breyner
segunda-feira, abril 09, 2012
Espera
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Jeffrey Batchelor
Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção
a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão pousada sobre a mesa
É então que se vê o passar do silêncio
Navegação antiquíssima e solene
Sophia de Mello Breyner
sexta-feira, março 21, 2008
quem me roubou o tempo?
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Salvador Dali
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quem me roubou o tempo que era um
quem me roubou o tempo que era meu
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo se escrevia
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Sophia de Mello Breyner
sábado, dezembro 08, 2007
horizonte vazio

?
Horizonte vazio em que nada resta
Horizonte vazio em que nada resta
Dessa fabulosa festa
Que um dia te iluminou.
As tuas linhas outrora foram fundas e vastas,
Mas hoje estão vazias e gastas
E foi o meu desejo que as gastou.
Era do pinhal verde que descia
A noite bailando em silenciosos passos,
E naquele pedaço de mar ao longe ardia
O chamamento infinito dos espaços.
Nos areais cantava a claridade,
E cada pinheiro continha
No irreprimível subir da sua linha
A explicação de toda a heroicidade.
Horizonte vazio, esqueleto do meu sonho,
Árvore morta sem fruto,
Em teu redor deponho
A solidão, o caos e o luto.
Sophia de Mello Breyner
sexta-feira, novembro 30, 2007
Porque está de volta...
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Mario Henrique Leiria
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
.
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
.
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça
.
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Sophia de Mello Breyner

Mario Henrique Leiria
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
.
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
.
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça
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Sophia de Mello Breyner
domingo, outubro 28, 2007
Pusemos tantos sonhos em seu nome!
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Julek Heller
.
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Vimos o mundo aceso nos seus olhos,
E por os ter olhado nós ficámos
Penetrados de força e de destino.
.
Ele deu carne àquilo que sonhámos,
E a nossa vida abriu-se, iluminada
Pelas imagens de oiro que ele vira,
.
Veio dizer-nos qual a nossa raça,
Anunciou-nos a pátria nunca vista,
E a sua perfeição era o sinal
De que as coisas sonhadas existiam.
.
Vimo-lo voltar das multidões
Com o olhar azulado de visões
Como se tivesse ido sempre só.
.
Tinha a face voltada para a luz,
Intacto caminhava entre os horrores,
Interior à alma como um conto.
.
E ei-lo caído à beira do caminho,
Ele - o que partira com mais força
Ele - o que partira pra mais longe.
.
Porque o ergueste assim como um sinal?
Pusemos tantos sonhos em seu nome!
Como iremos além da encruzilhada
Onde os seus olhos de astro se quebraram?
.
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Sophia de Mello Breyner

Julek Heller
.
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Vimos o mundo aceso nos seus olhos,
E por os ter olhado nós ficámos
Penetrados de força e de destino.
.
Ele deu carne àquilo que sonhámos,
E a nossa vida abriu-se, iluminada
Pelas imagens de oiro que ele vira,
.
Veio dizer-nos qual a nossa raça,
Anunciou-nos a pátria nunca vista,
E a sua perfeição era o sinal
De que as coisas sonhadas existiam.
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Vimo-lo voltar das multidões
Com o olhar azulado de visões
Como se tivesse ido sempre só.
.
Tinha a face voltada para a luz,
Intacto caminhava entre os horrores,
Interior à alma como um conto.
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E ei-lo caído à beira do caminho,
Ele - o que partira com mais força
Ele - o que partira pra mais longe.
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Porque o ergueste assim como um sinal?
Pusemos tantos sonhos em seu nome!
Como iremos além da encruzilhada
Onde os seus olhos de astro se quebraram?
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Sophia de Mello Breyner
sábado, junho 16, 2007
nunca perdem a jogada...
...

Francisco Goya e Lucientes - Bullfight Suerte de vara, 1824
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Os ricos nunca perdem a jogada
Nunca fazem um erro.
Espiam
E esperam os erros dos outros
Administram os erros dos outros.
São hábeis e sábios
Têm uma longa experiência do poder
E quando não podem usar a própria força
Apostam na fraqueza dos outros
E ganham
Tecem uma grande rede de estratagemas
Uma grande armadilha invisível
E devagar desviam o inimigo para o seu terreno
Para o sacrificar como um toiro na arena.
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Sophia de Mello Breyner
quarta-feira, junho 06, 2007
Dança de Junho
...
William Blake
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Em silêncio nas coisas embaladas
Vão dançando ao sabor dos seus segredos,
Nos seus vestidos brancos e bordados,
Raios de lua pousam como dedos,
E em seu redor baloiçam arvoredos
Escuros entre os céus atormentados.
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Sophia de Mello Breyner
domingo, junho 03, 2007
Tão nítido e preciso...
sábado, maio 05, 2007
Com fúria e raiva acuso o demagogo
...

José Clemente Orozco - el demagogo
Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada
De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra
Sophia de Mello Breyner

José Clemente Orozco - el demagogo
Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada
De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra
Sophia de Mello Breyner
sábado, abril 28, 2007
Vivesse a Sophia mais uns anos e, decerto, perderia a noção "da lateralidade política"
...

Harold Olejarz
http://www.olejarz.com/art/twohands/index.html
Nestes últimos tempos é certo que a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças
Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?
Que diremos do lixo do seu luxo – de seu
Viscoso gozo da nata da vida – que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?
Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?
Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?
Nestes últimos tempos é certo que a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto
Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?
Sophia de Mello Breyner

Harold Olejarz
http://www.olejarz.com/art/twohands/index.html
Nestes últimos tempos é certo que a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças
Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?
Que diremos do lixo do seu luxo – de seu
Viscoso gozo da nata da vida – que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?
Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?
Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?
Nestes últimos tempos é certo que a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto
Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?
Sophia de Mello Breyner
quarta-feira, abril 25, 2007
Esta é a madrugada que eu esperava...
domingo, abril 22, 2007
(novo) pranto pelo(s) dia(s) de hoje
...

Joe Sorren
.
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Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruido
Por troças, por insídias, por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
.
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Sophia de Mello Breyner
quinta-feira, abril 05, 2007
mas solitários somos e passamos...
...

Odilon Redon
Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.
Sophia de Mello Breyner

Odilon Redon
Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.
Sophia de Mello Breyner
domingo, abril 01, 2007
trazias em ti outro jardim possível e perdido
...
Odilon Redon
.
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Jardim em flor, jardim de impossessão,
Transbordante de imagens mas informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão.
.A verdura das arvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.
.
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A luz trazia em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidades e suspensão.
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Mas cada gesto em ti se quebrou, denso
Dum gesto mais profundo em si contido,
Pois trazias em ti sempre suspenso
Outro jardim possível e perdido.
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Sophia de Mello Breyner
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Inquietas de tocar...
terça-feira, agosto 08, 2006
De todas, a mais bela...
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fotografia pessoal (quadro com assinatura indecifrável)
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
As ondas quebravam uma à uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só p’ra mim
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
Sophia de Mello Breyner

fotografia pessoal (quadro com assinatura indecifrável)
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
As ondas quebravam uma à uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só p’ra mim
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
Sophia de Mello Breyner
sábado, julho 08, 2006
Aqui me sentei quieta...
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