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quinta-feira, setembro 06, 2012

Um sonho cego a nada

.
Remedios Varo


Prometemos
que teríamos em comum
não sermos dois, apenas um
E que as nossas almas nuas
viciadas na bruma
não fossem duas
apenas uma.

Prometemos
um sonho para lá do aterro
um sonho sem medo
um sonho semente enraizada
um sonho sem ego
um sonho cego
a nada.

Um sonho
um sonho apenas
só um
um sonho sem penas
apenas um
um sonho
realizado por nenhum.


Paulo Anes

quinta-feira, junho 07, 2012

Rio do Esquecimento

.
?


Rio do génio perdido no labirinto do espanto,
Das faces no gelo de olhos caídos
Na solidão de um olhar, sonhos diluídos
Esculturas do desejo demolidas em pranto.

Olhos em vitrais de mágoa ferida,
Olhos máscaras do sonho extinto,
É um acordar onde ainda te sinto,
Loucura ardente, gargalhadas de vida.

Um ser místico, um eu vagabundo,
Neblina leve que se esfuma no cais.
Ó delírio secreto diz-me onde vais?
Vã tentativa de agarrar o meu mundo.


Paulo Anes

sábado, abril 21, 2012

Grito como águas sem lugar

.
Steven Smith


Há na saudade pungente
Uma seara desejo
Uma giesta, um beijo
Sem tentação que o tente,

Uma seara apagão,
Uma só ténue lembrança,
Berço, eira-recordação
Que não passa de esperança.

E na saudade agonia,
Aquela em que eu vivo e vivia
Em movimento de fado,
Corre uma dor lancinante

Que embala a todo o instante
Como um ferrão tresloucado
A ausência de ti
E de tudo

Mesmo do que é recordado.


Paulo Anes

segunda-feira, abril 09, 2012

Letes

.
Ken Flett


Lento o amor esquece e a alegria
É como uma história de outrem.
Passa a noite fria
Na nossa nostalgia,
Passa a nostalgia, toca a desgraça
E tudo o que passa
Toca em ninguém.


Paulo Anes