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sexta-feira, julho 06, 2012

Ai, Aurora! Traidora!

.
Pierre Auguste Renoir


Ai que vida mais triste! Ando mesmo abatido,
Vi hoje a minha amante nos braços do marido,
Já não quero viver, após tal decepção
E ando mesmo a poupar p'ra comprar um caixão.
Ai, Aurora! Traidora!

Já não tenho palavras, fiquei sem argumentos,
Ela quer abusar dos meus bons sentimentos.
Abraçada àquele tipo diante de mim,
Perante tal ultraje, isto não fica assim.
Ai, Aurora! Traidora!

Eu nem sei que fazer neste mundo malvado,
Já se diz por aí: «O Lulu é veado»
E p'ra me chatear, disse-me ela uma vez:
«O mais corno dos dois, não é aquele que tu crês!»
Ai, Aurora! Traidora!

Mas que raio me deu, p'ra não desconfiar,
Da enorme traição que pairava no ar,
Porque os filhos que tem, fui eu quem os quis,
O que há dias nasceu, não tem o meu nariz.
Ai, Aurora! Traidora!

Se te apanho outra vez nessa pouca vergonha,
Ai que não me contenho, dou-te cabo da fronha.
Escolher o marido p'ra enganar o amante.
É levar o adultério ao ponto culminante.
Ai, Aurora! Traidora!


Poesia e Música - Georges Brassens
Adaptação e Interpretação - Luís Cília

segunda-feira, março 26, 2007

conta-me...

...

Pierre-Auguste Renoir
...
...
Conta-me
Conta-me o que se calou ainda.
Conta-me a memória, os sorrisos,
a doçura.
Põe a música certa a tocar e conta-me.
Conta-me o sentido, o racionalizado.
Conta-me das histórias,
dos equilibrismos.
Faz-me um desenho, uma pintura.
Diz-me como estava o céu,
como brilhavam as estrelas,
como já se ia embora Vénus
e a aurora raiava o negro
de rosas e amarelos.
Diz-me como foi o dia,
aquece-me desse mesmo sol.
Conta-me das metamorfoses,
dos crescimentos,
dos pés já doridos,
dos sonhos acordados.
.
Conta-me.
Não esqueças nem um pormenor,
um pensamento, um fio.
Conta-me.
Preenche cada espaço,
soletra cada letra.
Não te enganes nos ondes,
nos quandos, nos porquês.
Conta-me.
Recorda, agora, memória.
Conta-me tudo o que já começo a esquecer


Hipatia

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Mas havia todo o teu corpo a desmenti-lo...

...

Pierre-August Renoir


Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono... Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará...)


E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo...


Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto...
Agora, nu, será feliz,
sob o afago do sol-posto...

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo...?
Seria Outono...
Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.


David Mourão-Ferreira

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Have You Really Ever Loved A Woman



Pierre-Auguste Renoir



To really love a woman to understand her
you gotta know her deep inside
hear every thought see every dream
and give her wings when she wants to fly

Then when you find yourself lying helpless
in her arms
you know you really love a woman

When you love a woman
you tell her that she's really wanted
You when you love a woman
you tell her that she's the one
she needs somebody
to tell her that it's gonna last forever
so tell me have you ever really
really really ever loved a woman

To really love a woman let her hold you
till you know how she needs to be touched
you gotta breathe her really taste her
till you can feel her in you blood
and when you can see your unborn children
in her eyes
you know you really love a woman

When you love a woman
you tell her that she's really wanted
when you love a woman
you tell her that she's the one
'cause she needs somebody
to tell her that you'll always be together
so tell me have you ever really
really really ever loved a woman

You got to give her some faith
hold her tight a little tenderness
you gotta treat her right
she will be there for you
taking good care of you
you really gotta love your woman

And when you find yourself lying helpless
Have in her arms
you know you really love a woman

When you love a woman
you tell her that she's really wanted
when you love a woman
you tell her that she's the one
'cause she needs somebody
to tell her that it's gonna last forever
so tell me have you ever really
really really ever loved a woman

Just tell me have you ever really
really really ever loved a woman
just tell me have you ever really
really really ever loved a woman


Bryan Adams

terça-feira, dezembro 05, 2006

Silêncio e tanta gente

....
Pierre-Auguste Renoir


Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro o amor em teu olhar
É uma pedra
Ou um grito
Que nasce em qualquer lugar

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou

Às vezes sou também
O tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar

Às vezes sou também
Um sim alegre
Ou um triste não
E troco a minha vida por um dia de ilusão

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra
Ou um grito
De um amor por acontecer

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou
E esta pedra
E este grito
São a história d'aquilo que sou


Maria Guinot
letra, música e interpretação

segunda-feira, outubro 16, 2006

Menina dos olhos de Água


Pierre-Auguste Renoir



Menina em teu peito sinto o Tejo
e vontades marinheiras de aproar
menina em teus lábios sinto fontes
de água doce que corre sem parar

menina em teus olhos vejo espelhos
e em teus cabelos nuvens de encantar
e em teu corpo inteiro sinto o feno
rijo e tenro que nem sei explicar

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar

aprendi nos "Esteiros" com Soeiro
aprendi na "Fanga" com Redol
tenho no rio grande o mundo inteiro
e sinto o mundo inteiro no teu colo

aprendi a amar a madrugada
que desponta em mim quando sorris
és um rio cheio de água levada
e dás rumo à fragata que escolhi

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar...
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar



música e letra de Pedro Barroso
in álbum "Cantos da borda d'água" 1985

sábado, junho 24, 2006

Rosas



Pierre-Auguste Renoir

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
És tu a Primavera que eu esperava
a vida multiplicada e brilhante
em que é pleno e perfeito cada instante

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
És tu a primavera que eu esperava...


Sophia de Mello Breyner Andresen