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domingo, novembro 18, 2007

direi como do corpo a música se extrai...

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Gustav Klimt
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Orquestra, flor e corpo:
doravante direi
como do corpo a música se extrai,
como sem corpo a flor não tem perfume,
como de corpo a corpo o som se repercute.
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Orquestra, sim: orquestra. E flor. E noite.
Doravante dizendo orquídea negra
é logo o violoncelo nomeado;
e logo, logo, os instrumentos de arco
arremessando vão a flecha ao alvo;
e é logo o alvo peito;
e é logo amor,
e é logo a noite
murmurando «Até logo!» à outra noite. . .
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De corpo a corpo a noite se transmite.
Orquestra, sim: orquestra. E flor. E vaga.
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E a noite é sempre o corpo anoitecido,
e o corpo é sempre a noite que se aguarda.
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De corpo a corpo o som se repercute,
de vale em vale,
de monte a monte,
de címbalo, de cítara, et coetera,
ao tímpano sensível que o recebe.
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Sem concha do ouvido,
o mar não tem rumor.
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Sem asa do nariz,
não voa a maresia.
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E o mundo só é mundo enquanto houver o corpo,
de música e de flor universal medida.
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David Mourão-Ferreira

terça-feira, maio 08, 2007

Comigo me desavim...

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Gustav Klimt
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Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.
.Com dor, da gente fugia,
antes que esta assim crecesse;
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo,
tamanho imigo de mim?.
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Sá de Miranda

quarta-feira, janeiro 24, 2007

o corpo lembra

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Gustav Klimt


Esqueço sempre, mas o corpo lembra:
em breve
será dezembro.


Thiago de Mello

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Sim... creio que foi o sorriso

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Gustav Klimt


Creio que foi o sorriso,
0 sorriso foi quem abriu a
porta.
Era um sorriso com
muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa,
ficar
nu dentro daquele
sorriso.
Correr, navegar, morrer
naquele sorriso.


Eugénio de Andrade

sábado, dezembro 09, 2006

Segredo...

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Gustav Klimt


Um beijo é um segredo que se diz na boca e não no ouvido.


Jean Rostand

sábado, novembro 25, 2006

este oferecer-se de dentro...

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Gustav Klimt - Fulfillment


Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém.


António Gedeão



Rui de Sousa - caricatura de António Gedeão in:
http://desenhosdorui.blogs.sapo.pt/tag/caricaturas

quarta-feira, outubro 25, 2006

Desperta-me de noite o teu desejo

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Gustav Klimt


Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

É rede a tua língua
em sua teia
é vício as palavras
com que falas

E queres-me de amor
e dás-me o tempo

a trégua
a entrega
o disfarce


E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes

Despertas-me de noite
com o teu corpo

tiras-me do sono
onde resvalo

E eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vais descobrindo vales.
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Maria Teresa Horta
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domingo, outubro 01, 2006

De onde vieste, feiticeira?


Gustav Klimt


De que noite demorada
Ou de que breve manhã
Vieste tu, feiticeira
De nuvens deslumbrada

De que sonho feito mar
Ou de que mar não sonhado
Vieste tu, feiticeira
Aninhar-te ao meu lado

De que fogo renascido
Ou de que lume apagado
Vieste tu, feiticeira
Segredar-me ao ouvido

De que fontes de que águas
De que chão de que horizonte
De que neves de que fráguas
De que sedes de que montes
De que norte de que lida
De que deserto de morte
Vieste tu feiticeira
Inundar-me de vida


Música: Luís Represas
Letra: Francisco Viana
Interpretação: Luís Represas

segunda-feira, julho 17, 2006

Sonhei comigo

...
Gustav Klimt

Sonhei comigo
esta noite
Vi-me ao comprido
Deitada
Tinha estrelas
nos cabelos
em meus olhos
madrugadas
Sonhei comigo
esta noite
como queria
ser sonhada
Senti o calor da mão
percorrendo uma guitarra
De longe vinha um gemido
uma voz desabalada
Havia um campo
de trigo
um sol forte
me abrasava.
E acordei
meio sonhando
procurando
me encontrar
Quando me vi
ao espelho
era teu
o meu olhar.

Eugénia Tabosa