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terça-feira, abril 03, 2007

abrigo-me...

...

Manuela Pinheiro

Abrigo-me de ti
de mim não sei
há dias em que fujo
e que me evado

há horas em que a raiva
não sequei
nem a inveja rasguei
ou a desfaço

Há dias em que nego
e outros onde nasço

há dias só de fogo
e outros tão rasgados

Aqueles onde habito com tantos
dias vagos

Maria Teresa Horta

domingo, dezembro 03, 2006

A parte que é anjo no teu corpo e me procura...

...

Marc Chagall

A parte que é

anjo
do teu corpo
e me procura a meio
da madrugada

Sobrevoando o lago

que é suposto
ser no meu sono
aquilo que calava

A parte que é

anjo
no teu corpo

e me visita

a meio da madrugada

descansando as asas

dos teus ombros
a meu lado:
em cima da almofada


Maria Teresa Horta

segunda-feira, outubro 30, 2006

Como é possível perder-te sem nunca te ter achado...

....

Shwidkiy Andrey


Poema Sobre a Recusa
Como é possível perder-te

sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus

dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade

nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor

nem o interior da erva

Como é possível perder-te

sem nunca te ter achado
minha raiva

de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda


Maria Teresa Horta

quarta-feira, outubro 25, 2006

Desperta-me de noite o teu desejo

...
Gustav Klimt


Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

É rede a tua língua
em sua teia
é vício as palavras
com que falas

E queres-me de amor
e dás-me o tempo

a trégua
a entrega
o disfarce


E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes

Despertas-me de noite
com o teu corpo

tiras-me do sono
onde resvalo

E eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vais descobrindo vales.
.

Maria Teresa Horta
.

domingo, outubro 15, 2006

Nesta certeza que não vens

...

Henry Asencio


Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido

os dedos que me
vogam
nos cabelos

e os lábios que me
roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los...

Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...

Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei
para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.



Maria Teresa Horta

quinta-feira, julho 13, 2006

Silêncios...

Shwidkiy Andrey


São tantos
os silêncios da fala
De sede
De saliva
De suor

Silêncios de sílex
no corpo do silêncio

Silêncios de vento
de mar
e de torpor

De amor
Depois, há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor.



Maria Teresa Horta