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segunda-feira, dezembro 25, 2006

tempo de adulto, tempo de criança

...

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...
espero que me calhe a fava
que é costume meter no bolo-rei;
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais partilhava

numa ordem das coisas cuja lei
dos afectos e memória em nós grava
nalgum lugar da alma e que destrava
tanta coisa sumida que, bem sei,

pela sua presença cristaliza
saudade e alegria em sons e brilhos,
sabores, cores, luzes, estribilhos…
e até por quem nos falta então se irisa

na mais pobre semente a intensa dança
do tempo de adulto e tempo de criança.

Vasco Graça Moura

quarta-feira, dezembro 13, 2006

só um colar...

. ..
Ivannikova Svetlana (adulterado por um colar...)


estava nua, só um colar lhe dava
horizontes de incêndio sobre o peito,
a transmutar, num halo insatisfeito,
a rosa de rubis em quente lava.

estava nua e branca num estreito
lençol que o fim do sono desdobrava
e a noite era mais livre e a lua escrava
e o mais breve pretérito imperfeito.

só o tempo verbal lhe fugiria,
no alongar dos gestos e requebros,
junto do espelho quando as aves vão.

toda a nudez, toda a melancolia,
a dor do mundo, a deslembrança, a febre,
os olhos rasos de água e solidão.


Vasco Graça Moura

segunda-feira, julho 31, 2006

Desencontros...

...

Ernst Ludwig


entre correntes de ar, numa estação
de caminho-de-ferro, parte alguém
e alguém está a chegar e tudo sem
se avistarem por entre a multidão.

fica o destino à solta, mas refém
de ironias do acaso e da emoção
e descuidos do tempo e da razão
nos trilhos apressados de ninguém.

ou por passarem anos, por ser vão
usar adversativas: mas, porém...,
por várias lembranças que também
desencontradamente vêm e vão

na roda da fortuna, quando quem
assim ia passando estava à mão


Vasco Graça Moura
(guião para santa apolónia)