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segunda-feira, outubro 16, 2006

Menina dos olhos de Água


Pierre-Auguste Renoir



Menina em teu peito sinto o Tejo
e vontades marinheiras de aproar
menina em teus lábios sinto fontes
de água doce que corre sem parar

menina em teus olhos vejo espelhos
e em teus cabelos nuvens de encantar
e em teu corpo inteiro sinto o feno
rijo e tenro que nem sei explicar

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar

aprendi nos "Esteiros" com Soeiro
aprendi na "Fanga" com Redol
tenho no rio grande o mundo inteiro
e sinto o mundo inteiro no teu colo

aprendi a amar a madrugada
que desponta em mim quando sorris
és um rio cheio de água levada
e dás rumo à fragata que escolhi

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar...
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar



música e letra de Pedro Barroso
in álbum "Cantos da borda d'água" 1985

domingo, outubro 15, 2006

Nesta certeza que não vens

...

Henry Asencio


Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido

os dedos que me
vogam
nos cabelos

e os lábios que me
roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los...

Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...

Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei
para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.



Maria Teresa Horta

sexta-feira, outubro 13, 2006

Pusemos tanto azul nessa distância...


Vincent van Gogh


Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficámos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.

E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.



Natália Correia

quinta-feira, outubro 12, 2006

Sou doutras coisas...


Heather Jordan


Sou doutras coisas
fiz o meu barco com guitarras e com folhas
e com o vento fiz a vela que me leva
sou pescador de coisas belas, de emoções
sou a maré que sempre sobe e não sossega




Fernando Tordo

quarta-feira, outubro 11, 2006

O sonho é ver formas invisíveis...


Paul Cezanne


O sonho é ver formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.


Fernando Pessoa

terça-feira, outubro 10, 2006

Não... não vou por aí!


Rembrandt van Rijn

Cântico Negro


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí.




José Régio

domingo, outubro 08, 2006

Sous la lumière d'un ciel rosé...


Claude Monet


Sous la lumière d'un ciel rosé
la montagne encensait
le turquoise de l'horizon
projeté dans l'oeil
retourné au passé
sous l'épaisse couche de givre
quand le présent fait rage
sur l'âme rompue
au vif espoir
d'une lumière entrevue
à travers les silences
le bruit de mes pas
et le cri d'un oiseau



Huguette Bertrand

sexta-feira, outubro 06, 2006

Confiança


Vincent van Gogh

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...


Miguel Torga

domingo, outubro 01, 2006

De onde vieste, feiticeira?


Gustav Klimt


De que noite demorada
Ou de que breve manhã
Vieste tu, feiticeira
De nuvens deslumbrada

De que sonho feito mar
Ou de que mar não sonhado
Vieste tu, feiticeira
Aninhar-te ao meu lado

De que fogo renascido
Ou de que lume apagado
Vieste tu, feiticeira
Segredar-me ao ouvido

De que fontes de que águas
De que chão de que horizonte
De que neves de que fráguas
De que sedes de que montes
De que norte de que lida
De que deserto de morte
Vieste tu feiticeira
Inundar-me de vida


Música: Luís Represas
Letra: Francisco Viana
Interpretação: Luís Represas

sábado, setembro 30, 2006

A minha solidão


Mitchell Miller


A minha solidão
não é uma invenção
para enfeitar noites estreladas...

...Mas este querer arrancar a própria sombra do chão
e ir com ela pelas ruas de mãos dadas.

...Mas este sufocar entre coisas mortas
e pedras de frio
onde nem sequer há portas
para o Calafrio.

...Mas este rir-me de repente
no poço das noites amarelas...
- única chama consciente
com boca nas estrelas.

...Mas este eterno Só-Um
(mesmo quando me queima a pele o teu suor)
- sem carne em comum
com o mundo em redor.

...Mas este haver entre mim e a vida
sempre uma sombra que me impede
de gozar na boca ressequida
o sabor da própria sede.

...Mas este sonho indeciso
de querer salvar o mundo
- e descobrir afinal que não piso
o mesmo chão do pobre e do vagabundo.

...Mas este saber que tudo me repele
no vento vestido de areia...
E até, quando a toco, a própria pele
me parece alheia.

Não. A minha solidão
não é uma invenção
para enfeitar o céu estrelado...

...mas este deitar-me de súbito a chorar no chão
e agarrar a terra para sentir um Corpo Vivo a meu lado.


José Gomes Ferreira

sexta-feira, setembro 29, 2006

Rendas de água

....


















chuvas de barro
olhos nas rendas desenhadas nas ruas penduradas nas árvores

a água faz-me desenhar
o que nem sei existir

leio os lusíadas
sinto a água em nevoeiro
ao ler sei um novo tempo
iniciado em nós nestas rendas
desejadas em silêncios

escavámos um poço
de sal
apagámos os desejos
neste rio inventado
de palavras sós

fico à beira de mim
tecendo águas
no que nunca diremos


Constança Lucas

quarta-feira, setembro 27, 2006

queria que o meu sonho não parasse

...

Sarah Larsen


e neste sonho de irreais,
eu queria que o meu sonho não parasse,
queria ir dormindo, sem acordar mais,
ou que este sonho não me abandonasse


Zabel Moita

domingo, setembro 24, 2006

Oh! quem me dera que fôramos em tudo semelhantes!

...

Alfredo Keil


Fermoso Tejo meu, quão diferente
Te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
Claro te vi eu já, tu a mim contente.

A ti foi-te trocando a grossa enchente
A quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
O meu viver contente ou descontente.

Já que somos no mal participantes,
Sejamo-lo no bem. Oh! quem me dera
Que fôramos em tudo semelhantes!

Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras de antes,
Eu não sei se serei quem de antes era.


Francisco Rodrigues Lobo

sexta-feira, setembro 22, 2006

Cavalo à solta

....

Pino Daeni


Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve, breve
instante da loucura

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura



Ary dos Santos

terça-feira, setembro 19, 2006

Entrega...

...
Vladimir Kim

É quando estás de joelhos
que és toda bicho da Terra
toda fulgente de pêlos
toda brotada de trevas
toda pesada nos beiços
de um barro que nunca seca
nem no cântico dos seios
nem no soluço das pernas
toda raízes nos dedos
nas unhas toda silvestre
nos olhos toda nascente
no ventre toda floresta
em tudo toda segredos
e de joelhos me entregas
sempre que estás de joelhos
todos os frutos da Terra.



David Mourão Ferreira

sexta-feira, setembro 15, 2006

Espáduas brancas palpitantes

....

Polina Nechaeva


Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.


Natália Correia

quarta-feira, setembro 13, 2006

Que fazes aí, Lisboa?

...
Abel Manta


Que fazes aí, Lisboa,
De olhos fincados no rio?
Os olhos não se levantam
Para prender um navio?
Que fazes aí, Lisboa,
De olhos fincados no rio?

O barco que ontem partiu
Partiu e não volta mais!
Chora lágrimas de pedra
Em cada esquina do cais!
O barco que ontem partiu,
Partiu e não volta mais!

Lisboa, velha Lisboa,
Mãe pobre à beira do rio!
Seja o cheiro dos meus ombros
Agasalho do teu frio!
Lisboa, velha Lisboa,
Mãe pobre à beira do rio!


Mário Gonçalves

sexta-feira, setembro 08, 2006

Escreve-me um poema!

...

Danielle Clement

Escreve-me um poema!
Sim, um poema!
Que mal é que tem?
Basta falares dos teus sentimentos, do teu amor…
Fala de ti. Fala de mim.
Lembra-te que será para guardar no coração…
Para avivar as chamas do amor
quando elas se começam a apagar.

Não importa o tempo que demorares,
Mas por favor, escreve-me por amor…


J.F. - 1990 (c/ 12 anos)

quarta-feira, setembro 06, 2006

e será tarde até saber que não existes...

...
August Macke

Neste curso espaço entre nós e a morte
tão mal gastamos a nossa despedida!

Tu, amor de quem (não) sei o nome
de onde não sei a sorte,
vais passar além deste poema que era teu
e assim, de morte construída,
teus passos vão enchendo a minha vida.

Outro nome será flor sobre os teus lábios,
e outros dedos tocarão a límpida frescura
dos teus ombros quase d`água
e saberão de cor o horizonte branco do teu corpo…

E assim iremos de olhos futuros,
tu, envelhecendo da minha ausência,
eu, a erguer-te na curva da esperança,

e outra mão vai desmanchar a tua trança
e hei-de beijar teu rosto onde não eras
e serás só o que há antes das horas mais tristes
(e será tarde até saber que não existes)

Neste curto espaço entre nós e a morte,
onde me vais perdendo,
onde te vou buscando,
nosso amor se vai embora alimentando
de despedida;

não porque morra o tempo em teus braços,
mas a vida.


Victor Matos e Sá

segunda-feira, setembro 04, 2006

um só coração se ouvia embalado pelo mar

...

José Malhoa


A noite era quase dia
e o vento vinha do mar
Soltaram-se teus cabelos
antes mesmo de os tocar

Os olhos ainda fugiam
evitando se encontrar
E teu corpo de tão perto
não me deixava falar

Quanto tempo assim passou
até o céu se dourar...
Na areia quente e macia

Batendo quase em surdina
um só coração se ouvia
embalado pelo mar.


Eugénia Tabosa

segunda-feira, agosto 28, 2006

Colchão de (a)mar

...
Ron Francis - un trompe l`oeil

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.



Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, agosto 22, 2006

Parabéns!


Marc Chagall


BODAS DE OURO (para os meus Pais no dia das suas Bodas de Ouro)
Fazem hoje 57 anos de casados
... mas o sentimento continua o mesmo.

Olhando para trás, recordamos
o dia em que nos conhecemos,
o começo do nosso namoro,
o início da nossa vida em comum,
o nascimento de cada um dos nossos filhos.

Olhando para trás, recordamos
os problemas que resolvemos juntos,
as alegrias que partilhámos,
os “pequenos” e “grandes” momentos
que foram o nosso dia a dia.

Olhando para trás, recordamos
como, pouco a pouco,
fomos concretizando os nossos sonhos.

E, ao recordarmos, apercebemo-nos
que, para nós, cada dia,
é sempre aniversário de qualquer coisa;
de qualquer coisa que partilhámos os dois,
que sentimos os dois, que construímos os dois.

Mas hoje!
Oh, que dia tão especial o de hoje!

Faz 50 anos!
Faz 50 anos que nos unimos pelo casamento,
que prometemos, um ao outro, perante o mundo,
que nos amaríamos e respeitaríamos
para o resto das nossas vidas.

Faz 50 anos!
Faz 50 anos que o casamento
nos juntou na espiral do amor.
Amando-nos e respeitando-nos
crescemos juntos.
De mãos dadas, fomos e somos,
amigos, amantes, companheiros.

Por isso, especialmente hoje,
perante todos vós,
que fazem parte da nossa vida
e nos ajudaram a ser o que somos,
renovamos os votos de amor e respeito,
feitos há 50 anos, ... feitos todos os dias.




Queremos que saibam
que nos amamos e respeitamos muito;
que prometemos amarmo-nos sempre,
cada vez mais (se é que isso ainda é possível!);
que continuamos a gostar
de estar casados um com o outro.

Ontem... Hoje... Amanhã...
juntos seremos sempre
a melodia de um Hino de Amor.

................................... Agosto de1999

...
Obrigada.
Um grande beijo para os dois.

Maria Ema

segunda-feira, agosto 21, 2006

Há noites que...

...

P Crockett

Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que levamos à cintura
Como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à bainha dum cometa.

Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
À mais longínqua onda do seu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo.

Há noites que são lírios e são feras
E a nossa exactidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esferas
Os astros que se olham de perfil.

Natália Correia

terça-feira, agosto 15, 2006

Azulejos de Lisboa

...

Azulejos - Miradouro de Santa Luzia
Fotografia de Paulo Azevedo



Azulejos da cidade,
numa parede ou num banco,
são ladrilhas da saudade
vestida de azul e branco.

Bocados da minha vida,
todos vidrados de mágoa,
azulejos, despedida
dos meus olhos, rasos de água.

À flor dum azulejo, uma menina;
do outro, um cão que ladra e um pastor.
Ai, moldura pequenina,
que és a banda desenhada
nas paredes do amor.

Azulejos desbotados
por quanto viram chorar.
Azulejos tão cansados
por quantos viram passar.

Podem dizer-vos que não,
podem querer-vos maltratar:
de dentro do coração
ninguém vos pode arrancar.

À flor dum azulejo, um passarinho,
um cravo e um cavalo de brincar;
um coração com um espinho,
uma flor de azevinho
e uma cor azul luar.

À flor do azulejo, a cor do Tejo
e um barco antigo, ainda por largar.
Distância que já não vejo,
e enche Lisboa de infância,
e enche Lisboa de mar.


Intérprete - Carlos do Carmo  (Fado Dos Azulejos)
Letra: Ary dos Santos
Música: Martinho de Assunção

quinta-feira, agosto 10, 2006

Desenho da vida

...
Gennady Privedentsev


Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.

Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projecto-me num abraço
e gero uma despedida.
Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.

Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida.


Cecília Meireles

terça-feira, agosto 08, 2006

De todas, a mais bela...

...

fotografia pessoal (quadro com assinatura indecifrável)

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.


As ondas quebravam uma à uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só p’ra mim


Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar



Sophia de Mello Breyner

terça-feira, agosto 01, 2006

Desencontro...

...

John Singer Sargent

Não sei em que esquina da vida me perdi
Em que rua devia ter virado
Que caminho devia ter continuado
E não continuei.
Nem sei sequer
Se fui eu que perdi a vida
Ou ela que se perdeu de mim.
E fiquei assim sem norte
Vagueando, errante
Entregue à minha sorte
Sem rumo ou rota traçada.

Hoje
Caminho atenta a todos os becos
Todas as ruas e recantos
Tentando encontrar a esquina da vida
Onde me perdi
Ou onde a vida perdendo-me
Se esqueceu de mim.


(encandescente - blog eroticidades)

segunda-feira, julho 31, 2006

Desencontros...

...

Ernst Ludwig


entre correntes de ar, numa estação
de caminho-de-ferro, parte alguém
e alguém está a chegar e tudo sem
se avistarem por entre a multidão.

fica o destino à solta, mas refém
de ironias do acaso e da emoção
e descuidos do tempo e da razão
nos trilhos apressados de ninguém.

ou por passarem anos, por ser vão
usar adversativas: mas, porém...,
por várias lembranças que também
desencontradamente vêm e vão

na roda da fortuna, quando quem
assim ia passando estava à mão


Vasco Graça Moura
(guião para santa apolónia)

sábado, julho 29, 2006

Amantes do Tejo


David Lambeth


Barco Negro

De manhã, que medo, que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada n'areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o sol penetrou no meu coração.

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas:

São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz qu'estás sempre comigo.

No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo


David Mourão-Ferreira

sexta-feira, julho 28, 2006

Gaivota


René Magritte


Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.


Alexandre O'Neill

quarta-feira, julho 26, 2006

"Peldida"! ... em mim? ou de mim?

....
Konstantin Lomovtzev


Pouco a pouco
Embaralho tudo e nada
Sou meu próprio
Espantalho
Fujo
De mim mesmo
Finjo-me
Da minha própria
Esfinge
Perdido em meu próprio
Labirinto
Sou o que sou
Ou minto? Será isso
Uma regra secreta?


Sebastião Uchoa Leite

segunda-feira, julho 24, 2006

Ternura

...
Maria Amaral


Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira

domingo, julho 23, 2006

Tourada

..
Oxacan painting of a bullfight


Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.

Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.

Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.

Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.

Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.

Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.

Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...

Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.

E diz o inteligente
que acabaram as canções.


Música: Fernando Tordo
Letra: Ary dos Santos
In: 1973.

sexta-feira, julho 21, 2006

Por una cabeza todas las locuras...


Pedro Alvarez


Por una cabeza todas las locuras,
tu boca que besa borra la tristeza, calma la amargura,
por una cabeza si ella me olvida
que importa perderme mil veces la vida, para que vivir.


Alfredo Le Pera

quarta-feira, julho 19, 2006

Do teu corpo...


Antoine de Villiers

Percorro do teu corpo os templos todos
as colunas ... os áticos ... as fontes

Como se de romagem fosse a Roma


David Mourão Ferreira

Os sonhos que desfolho...

...

Marc Chagal

Sempre no sonho me sinto
Sempre no sonho me olho
Olho-me com ideias que pinto
Durmo com cores que escolho

Sempre no sonho pinto
Sempre no sonho olho
Olho com palavras que sinto
Escrevo as imagens que escolho

E pinto e escrevo e olho
E leio no sonho
As linhas que aqui ponho
Os sonhos que desfolho


Ecce Rui

Obrigada, pelo teu sonho. É belo!

Um beijo muito gordo. :)

segunda-feira, julho 17, 2006

Sonhei comigo

...
Gustav Klimt

Sonhei comigo
esta noite
Vi-me ao comprido
Deitada
Tinha estrelas
nos cabelos
em meus olhos
madrugadas
Sonhei comigo
esta noite
como queria
ser sonhada
Senti o calor da mão
percorrendo uma guitarra
De longe vinha um gemido
uma voz desabalada
Havia um campo
de trigo
um sol forte
me abrasava.
E acordei
meio sonhando
procurando
me encontrar
Quando me vi
ao espelho
era teu
o meu olhar.

Eugénia Tabosa

domingo, julho 16, 2006

Quantos ais...

....

Toulouse-Lautrec

Ele sabe dos caminhos dessa minha terra
No meu corpo se escondeu, minhas matas percorreu
Os meus rios, os meus braços
Ele é o meu guerreiro nos colchões de terra
Nas bandeiras, bons lençóis
Nas trincheiras, quantos ais, ai

Cala a boca - olha o fogo!
Cala a boca - olha a relva!
Cala a boca, Bárbara

Ele sabe dos segredos que ninguém ensina
Onde guardo o meu prazer, em que pântanos beber
As vazantes, as correntes
Nos colchões de ferro ele é o meu parceiro
Nas campanhas, nos currais
Nas entranhas, quantos ais, ai

Cala a boca - olha a noite!
Cala a boca - olha o frio!
Cala a boca, Bárbara

Chico Buarque

quinta-feira, julho 13, 2006

Silêncios...

Shwidkiy Andrey


São tantos
os silêncios da fala
De sede
De saliva
De suor

Silêncios de sílex
no corpo do silêncio

Silêncios de vento
de mar
e de torpor

De amor
Depois, há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor.



Maria Teresa Horta

segunda-feira, julho 10, 2006

Sonho...

...
Chagall

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.

Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...



Mário Quintana

sábado, julho 08, 2006

Aqui me sentei quieta...

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Modigliani
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...

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos

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...

Sophia de Mello Breyner

sábado, julho 01, 2006

Espera...

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Louis Icart.
...
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Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo

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Mário de Sá-Carneiro....