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segunda-feira, março 26, 2007

conta-me...

...

Pierre-Auguste Renoir
...
...
Conta-me
Conta-me o que se calou ainda.
Conta-me a memória, os sorrisos,
a doçura.
Põe a música certa a tocar e conta-me.
Conta-me o sentido, o racionalizado.
Conta-me das histórias,
dos equilibrismos.
Faz-me um desenho, uma pintura.
Diz-me como estava o céu,
como brilhavam as estrelas,
como já se ia embora Vénus
e a aurora raiava o negro
de rosas e amarelos.
Diz-me como foi o dia,
aquece-me desse mesmo sol.
Conta-me das metamorfoses,
dos crescimentos,
dos pés já doridos,
dos sonhos acordados.
.
Conta-me.
Não esqueças nem um pormenor,
um pensamento, um fio.
Conta-me.
Preenche cada espaço,
soletra cada letra.
Não te enganes nos ondes,
nos quandos, nos porquês.
Conta-me.
Recorda, agora, memória.
Conta-me tudo o que já começo a esquecer


Hipatia

domingo, março 25, 2007

tocar sobre teu corpo um acorde de guitarra

...

Erika Stander


tocar sobre teu corpo
ao silêncio das estrelas
um acorde de guitarra


Ronaldo Bomfim

hora de camaleões

...

Jacques Louis David


Altifalam vozes
nos salões e nas praças
nos ouvidos nos tumultos
martelam esmurram gritam palmejam
comunicam urram.
Conferências discursos aspectos e palestras
lições homenagens notas do dia e da semana
et nunc et semper.
Discursos almicos encomendados traduzidos
decorados divertidos ambaquistas.
Palavras datilografadas improvisos ponderados
palavras dinâmicas magnéticas.
Altifalam palavras.
Hora de camaleões e altifalantes.



Mendes de Carvalho

sábado, março 24, 2007

O medo vai ter tudo... havemos todos de chegar a ratos

...

Hieronymus Bosch
...
...
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
...
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles
...
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
...
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
...
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
sim
a ratos
...
...
Alexandre O’Neill

quinta-feira, março 22, 2007

Ninguém sentiu...

...

Peter Petri


Hoje à noite
Lua alta
Faltei
E ninguém sentiu
A minha falta

Paulo Leminski

quarta-feira, março 21, 2007

Esse lado de mim...

...

Israel Zzpeda


Esse lado de mim que vive
Desejando partir
É minha metade forasteira,
Selvagem e traiçoeira...

Chega ansiando ir embora,
Parte pensando em voltar,
E amarga uma impaciência que não controla...

Esse lado de mim que passeia pela vida
Sorrindo diante do intocável,
Brilhando olhos de lobo,

Voz mansa quebrando o silêncio,
É a parte de mim que não sabe o que quer,
Minha metade cansada,
Frágil e sensível...

Deseja ser guiada por um sonho,
Brincar na memória de alguém,
Ser parte eterna de uma alma
Que já aprendeu a amar...


Débora Böttcher

segunda-feira, março 19, 2007

Evolução?

...

...
...
O que me impressiona,
à vista de um macaco,
não é que ele tenha sido
nosso passado:
é este pressentimento
de que ele venha a ser
nosso futuro.
...
...
Mário Quintana

domingo, março 18, 2007

ali se espera...

...
Kondrashov Sergey
...
...
luz amarela no quarto dela
ali se espera
que um sonho entre pela janela
...
...
Alonso Alvarez

sexta-feira, março 16, 2007

onde queres que deixe?

...

( fotografia pessoal)
...
...
Onde queres que deixe as manhãs
que regressam dos poemas por dizer-te?

Onde queres que deixe o silêncio excessivo
das buganvílias que os dias ainda colhem
em cada varanda que não dá para o mar?

Onde queres que deixe as intactas travessias
que me inquietam os dedos e a sede,
como se houvesse um rio onde só a lua
tem nome e que só eu reconheço?

Onde queres que deixe a suave inclinação
de todas as planícies que um dia
te quis escrever?

Sandra Costa

Vem...

...

John Henry Fuseli
...
...
Vem ao baile vem ao baile
Pelo braço ou pelo nariz
Vem ao baile vem ao baile
E vais ver como te ris
Deixa a tristeza roer
As unhas de desespero
Deixa a verdade e o erro
Deixa tudo vem beber
Vem ao baile das palavras
Que se beijam desenlaçam
Palavras que ficam passam
Como a chuva nas vidraças
Vem ao baile oh tens de vir
E perder-te nos espelhos
Há outros muito mais velhos
Que ainda sabem sorrir
Vem ao baile da loucura
Vem desfazer-te do corpo
E quando caíres de borco
A tua alma é mais pura
Vem ao baile vem ao baile
Pelo chão ou pelo ar
Vem ao baile baile baile
E vais ver o que é bailar.
...
...
Alexandre O’Neill

quarta-feira, março 14, 2007

terça-feira, março 13, 2007

é assim, a música...

..

Israel Zzepda


A música é assim: pergunta,
insiste na demorada interrogação
– sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração – por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.


Eugénio de Andrade

segunda-feira, março 12, 2007

tudo arrumado...

...

René Magritte
.
.
Corpo arrumado
pendurado na cruzeta
Descansam os pés sobre a mesa

.
.Maria Ema

quarta-feira, março 07, 2007

há instantes-lâmina

...

Livia Alessandrini


há instantes-lâmina,
instantes que nos retalham
e nos confrontam com quem somos
e porquê.
Percorrem-nos lentamente
em sua natureza afiada.


Silvia Chueire

segunda-feira, março 05, 2007

sexta-feira, março 02, 2007

Governos e povo... caminhos divergentes

...

Vincent Van Gogh


Um presidente resolve
Construir uma boa escola
Numa vila bem distante.
Mas ninguém vai nessa escola:
Não tem estrada pra lá.

Depois ele resolveu
Construir uma estrada boa
Numa outra vila do Estado.
Ninguém se muda pra lá
Porque lá não tem escola.


História do Brasil
Murilo Mendes

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Eles...

...

Eric Maziade - funeral
(... de mortos -vivos)

Eles te advertem que a aurora foi abolida
por tempo indeterminado.
Eles te comunicam que o trigo e o vento
vão ser exportados para o arco-íris.
Eles te aconselham a esquecer
o corpo ensanguentado dos acontecimentos.
Eles te ensinam que o orvalho não cai
sobre aqueles que semeiam dúvidas.
Eles te mandam esvaziar as palavras
de toda a possível reminiscência.
Eles te fiscalizam do alto dos edifícios
escanchados nalgum dragão lunar.
Eles te dão um ataúde azul
e te ordenam que é tempo de morrer.


Francisco Carvalho

domingo, fevereiro 18, 2007

Os Vampiros - cada vez mais actual...

...

Edvard Munch

Os Vampiros

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada


Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

A toda a parte

Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo

Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada


Letra e música: Zeca Afonso

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Como a lua...

...

Livia Alessandrini - La Fenêtre de Van Gogh


Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles

terça-feira, fevereiro 13, 2007

vazia...

...

Sidney E. Dickinson


A gaveta da alegria
já está cheia
de ficar vazia

Alice Ruiz

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

domingo, janeiro 28, 2007

Depois, tudo estará perfeito

...

Israel Zzepda

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles

sexta-feira, janeiro 26, 2007

opinião pública

...

(roubado na net...)


25% querem
25% não querem
25% não sabem
25% não querem saber

33,33% têm medo
33,33% não têm medo
33,33% emudeceram

36,4% acreditam em parte
33,7% não acreditam em nada
29,4% querem acreditar em algo
23,2% são absolutamente céticos
28,6% são absolutamente crédulos
39,5% dão respostas múltiplas desesperadas

38% já foram antes
32% nunca foram
19% não se lembram como era
24% ainda não se esqueceram
47% não faziam a menor idéia
76% ficaram perplexos

X % estão certos
Y % estão fartos
N % estão mortos

Izacyl Guimarães Ferreira

quarta-feira, janeiro 24, 2007

o corpo lembra

...

Gustav Klimt


Esqueço sempre, mas o corpo lembra:
em breve
será dezembro.


Thiago de Mello

segunda-feira, janeiro 22, 2007

E aqui estou, cantando.

...

Livia Alessandrini


Discurso


E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajectória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?
Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?


Cecília Meireles

domingo, janeiro 21, 2007

Foz do Tejo, um país

...

George Lennard Lewis - view of the Tagus and Tower of Belém from the
the brittish legation in Lisbon (1880)




O rio não dialoga senão pela alma
de quem o olha e embebeu a sua alma
de olhares ribeirinhos no passado
ou à flor do pensamento no futuro.

É um país que fala dentro da fronte,
olhando as naus, navios, barcos pesqueiros
e o trilho das famintas aves pintoras
de riscos negros, que perseguem o odor
das redes cheias, as outrossim poéticas
familiares gaivotas. É uma costa inteira
de imagens de gaivotas dentro dos olhos.
São bocas a pensar razões da vida,
gargantas já caladas pela nascença e morte,
quando entre si se vêem ou juntas olham
o mar dos seus próprios dias. São cabeças
velhas de labutar, entre dentes cerrados,
as palavras mudas de um ofício no mar,
antigas de silêncio, como se no esófago
guardassem há muito a sabedoria de ir
enfrentar o mar, transpor o mar, estar.

Tal como um rio o mar só quer falar
pela dor e alegria de alma com que o chama,
há séculos na orla, um povo mudo,
com as palavras presas, guturais sem fôlego,
dentro de si, tão firmes no palato, articuladas
na língua interior. E o mar é quieto ou bravo,
e a alma tensa de uma paixão secreta,
escondida atrás da boca, e sempre aberta,
tal como as pálpebras diante desta água.

Só a alma sabe falar com o mar,
depois de chamar a si o Rio, no imo
de cada um, recordações, de todos
os que cumprem na linha da costa o seu destino.
O de crianças, berços nascidos à beira-mar,
aleitadas por água marinha bebida por rebanhos,
alimentadas por frutos regados pela bruma.
Mesmo quando petroleiros, se olharmos o mar,
passam sem som na glote, para nós mesmos dizemos
que o tempo já findou das caravelas outrora
e dentro do nosso sangue passa o tempo de agora.

Também as varinas, fenícias áfonas no poema
que as canta, sabem as formas, pelo olhar,
de serem mulheres com peixes à cabeça.
E os pregões que eu calo, revendo-as, eram outra
língua do mar, os nomes com que nos chamam
para o seu modo de levar entre as casas o mar.
Mas as dores não as ecoa o mar, nem mesmo
as de poetas, só as pancadas das palavras
no encéfalo parecem ser voz do mar.

É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós.
Glórias, misérias,que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no palato como estigma.



Fiama Hasse Pais Brandão

sábado, janeiro 20, 2007

Tomada de posse - governar é difícil...

... é um sacríficio feito em nome do povo

...

(roubado aqui: http://macroscopio.blogspot.com/2005_02_01_macroscopio_archive.html)

TOMADA DE POSSE

Eu, abaixo assinado, declaro solenemente, por minha honra
Que auferirei e desfrutarei
De todos os privilégios a que tenho direito
E de todas as mordomias que me serão concedidas
Como servidor e representante da Nação.
Prometo não esquecer que há crise… Para os outros
Prometo não dar mais regalias… Aos outros
Prometo cortar privilégios…. Aos outros
E com unhas e dentes defender os meus.
É uma honra servir este País
E depois de terminado o mandato
Irei como os meus antecessores
Para institutos ou empresas do Estado
Ou para a Caixa Geral de Depósitos
Fiel depositária de todos, os que como eu,
Não se distinguiram na governação
E que também assinaram este documento
Prometendo nele desfrutar ad eternum
Dos privilégios que me são concedidos
Por ter, mesmo que por pouco tempo,
Sentado o cu na cadeira do poder.

Encandescente



Antes e depois da tomada de posse
(Roubada no mesmo sítio do que a outra)

quinta-feira, janeiro 18, 2007

outro (também) deve olhá-la...

...

Mitchell Miller


Sobre mim a lua.
Lá atrás das altas montanhas
outro deve olhá-la.

 
Alexei Bueno

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Mas havia todo o teu corpo a desmenti-lo...

...

Pierre-August Renoir


Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono... Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará...)


E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo...


Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto...
Agora, nu, será feliz,
sob o afago do sol-posto...

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo...?
Seria Outono...
Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.


David Mourão-Ferreira

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Quem me dera voltar...

...

Claude Monet
...
...
Quem me dera voltar
às cores perdidas
nas tardes sem tempo
no mar deslumbrado
com seivas inquietas
das ervas que brotam
nas vidas corridas
nos medos
na alma a sangrar
...
Quem me dera voltar
ao silêncio de cantar
.
.
Constança Lucas

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Sim... creio que foi o sorriso

...

Gustav Klimt


Creio que foi o sorriso,
0 sorriso foi quem abriu a
porta.
Era um sorriso com
muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa,
ficar
nu dentro daquele
sorriso.
Correr, navegar, morrer
naquele sorriso.


Eugénio de Andrade

domingo, janeiro 07, 2007

era a mão de ninguém no meu cabelo...

...

Claude Monet


Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa
brava...

Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martirio
de São Sebastião, de Debussy....
Era, na jarra, de repente, um lirio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...


David Mourão-Ferreira

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Isto é o Teatro de Sã Bento onde se representam as comédias

...




Forasteiro em Lisboa



No Rossio o Prior de Santa Iria
Vendo um palácio, disse ao Canongia:
"Que será isto aqui?"
..............................................- D. Maria...
Onde se representam as tragédias.



Vai correndo a cidade, e sempre atento
Pergunta noutro sítio:
...................................-"Isto é convento?"
- Não! Isto é o Teatro de Sã Bento,
Onde se representam as comédias.


João de Deus

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Prometo ser eu!

...

Maria Ema
...
...
Prometo ser desobediente
E contestar todas as regras
Que não entenda, que não apreenda
Que não me expliquem
E que interfiram com a minha liberdade.
Prometo ser inconformada
Se ser conforme for assumir formas
Que não a minha
E conformada for aceitar
A imposição e aborrecimento duma rotina.
Prometo ser mal-educada
E mandar à merda quem me disser:
Sê conformada, tem paciência
A vida é isto, a vida é assim.
Prometo ser inconveniente
Se a conveniência não me servir
E conveniência for conivência
Aceitação, anulação e conformismo.
Ninguem nasce de trela e mordaça
Portanto, eu
Prometo ser eu!
Desobediente, inconveniente
Inconformada, mal-educada
E mandar à merda vida e regras
Quando e se me apetecer.

Encandescente, no livro Encandescente

terça-feira, janeiro 02, 2007