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sábado, junho 30, 2012

a alta finança só trabalha para si própria...

... o país e o povo não lhe interessam para nada, são apenas um meio para!

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George Grosz


Mandadores de alta finança
fazem tudo andar p'ra traz
Dizem que o mundo só anda
tendo á frente um capataz


José Afonso in Indíos da Meia-Praia

sexta-feira, junho 29, 2012

Ignorantes?... Indiferentes?...

Não percebem que os reis vão nus?

.
O rei vai nu - ?


Só a ignorância aceita
e a indiferença tolera
o reinado da mediocridade.


José de Alencar

quarta-feira, junho 27, 2012

Ganharás o pão com o suor do teu rosto e não com o suor do dos outros

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We have kaos in the garden


"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão"

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem


Sophia de Mello Breyner

sábado, junho 23, 2012

Desporto e Pedagogia...

Ética (ou falta dela...), Política e o "Zé" bem distraído...

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adidas - futebol-religião - "fresco" na Central Station de Cologne


Diz ele que não sei ler
Isso que tem? Cá na aldeia
Não se arranjam dúzia e meia
Que saibam ler e escrever.

P'ra escolas não há bairrismo,
Não há amor nem dinheiro.
Por quê? Porque estão primeiro
O Futebol e o Ciclismo!

Desporto e pedagogia
Se os juntassem, como irmãos,
Esse conjunto daria,
Verdadeiros cidadãos!
Assim, sem darem as mãos,
O que um faz, outro atrofia.

Da educação desportiva,
Que nos prepara p'ra vida,
Fizeram luta renhida
Sem nada de educativa.

E o povo, espectador em altos gritos,
Provoca, gesticula, a direito e torto,
Crendo assim defender seus favoritos
Sem lhe importar saber o que é desporto.

Interessa é ganhar de qualquer maneira.
Enquanto em campo o dever se atropela,
Faz-se outro jogo lá na bilheiteira,
Que enche os bolsinhos aos que vivem dela.

Convém manter o Zé bem distraído
Enquanto ele se entrega à diversão,
Não pode ver por quantos é comido
E nem se importa que o comam, ou não.

E assim os ratos vão roendo o queijo
E o Zé, sem ver que é palerma, que é bruto,
De vez em quando solta o seu bocejo,
Sem ter p'ra ceia nem pão, nem conduto.


António Aleixo

quarta-feira, junho 20, 2012

A morte não é um bem

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Sir James Thornhill


A morte não é um bem,
Os próprios deuses o sabem.

Eles preferiram viver…


Safo (séc. VI a. C.)
trad. de David Mourão-Ferreira

segunda-feira, junho 18, 2012

Luz

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Emiliano Di Cavalcanti


tua mão na minha
acendia as minhas veias
meus olhos viam além das paredes
mas tropecei nos teus braços
bêbada de luz.


Ivone Vebber

sábado, junho 16, 2012

passando dos cinquenta...

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Justyna Kopania


Meu pescoço se enruga.
Imagino que seja
de mover a cabeça
para observar a vida.
E se enrugam as mãos
cansadas dos seus gestos.
E as pálpebras
apertadas no sol.
Só da boca não sei
o sentido das rugas
se dos sorrisos tantos
ou de trancar os dentes
sobre caladas coisas.


Marina Colasanti 

terça-feira, junho 12, 2012

O dia da caça e do caçador

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Kurt Wenner


Onde caça e caçador se entendem,
se estendem, se rendem
se entregam, se integram,
arfando escorregam,
se interpenetram,
caça e caçador se caçam,
se cansam, se abrasam,
maturando-se mergulham
e nos suores soçobram
e tombando, alados, se abrandam.


Olga Savary

quinta-feira, junho 07, 2012

Rio do Esquecimento

.
?


Rio do génio perdido no labirinto do espanto,
Das faces no gelo de olhos caídos
Na solidão de um olhar, sonhos diluídos
Esculturas do desejo demolidas em pranto.

Olhos em vitrais de mágoa ferida,
Olhos máscaras do sonho extinto,
É um acordar onde ainda te sinto,
Loucura ardente, gargalhadas de vida.

Um ser místico, um eu vagabundo,
Neblina leve que se esfuma no cais.
Ó delírio secreto diz-me onde vais?
Vã tentativa de agarrar o meu mundo.


Paulo Anes

sexta-feira, maio 25, 2012

entre o mar, a areia e o sol

.
                                     








Podemos chorar porque te foste,                                      
ou sorrir porque viveste.

Podemos fechar os olhos e rezar para que voltes,
ou abrir os olhos e ver tudo o que nos deixaste                  

O nosso coração pode estar vazio porque não te pode ver,
ou estar cheio do amor que compartilhámos.

Podemos virar costas ao amanhã e viver no ontem,
ou sermos felizes para o amanhã por causa do ontem.

Podemos lembrarmo-nos de ti só porque te foste,
ou engrandecermos a tua memória e viver com ela.

Podemos chorar e fechar a nossa mente,
ficar vazios e virar costas à vida,
ou podemos fazer o que tu querias:
sorrir, abrir os olhos, amar e seguir em frente

sempre com o que partilhámos no nosso coração.


Libertamos-te
entre o mar, a areia e o sol
Libertamos-te
para a dança dos astros e dos planetas
Libertamos-te
nas mãos do fazedor de estrelas e no sopro do vento.

Amamos-te e sentimos muito a tua falta mas queremos-te feliz.
Vai em segurança, vai dançando no vento, vai para casa.

Vai, vai com todo o nosso amor.



tradução/adaptação livre dos poemas:

"You can shed tears that she is gone" by David Harkins
and
"Responses for a Cremation" by Ruth Burgess

Fotografias pessoais

Quando eu morrer...

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De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Esta praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.



                                                            
 
 






Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim                                               
A tua beleza aumenta quando estamos sós.        
E tão fundo, intimamente, a tua voz                        
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
 

 
                                   
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.


 
 
 
 
 
 
 




Sou eu, ainda, quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa







              



                               Quando eu morrer voltarei para buscar
                               Os instantes que não vivi junto do mar


          


Versos de Sophia Mello Breyner
Fotografias pessoais

terça-feira, maio 22, 2012

Labirinto

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Mauritus Cornelis Escher


Portas que desaguam em novas portas
Corredores, corredores, sem fim, sem fim.
Forças tento encontrar em mim
Para renovar as esperanças mortas.
Toda vida não é assim sem saída?
Sem respostas finjo-me de forte
Porque há esperança tendo vida
E sigo, abrindo portas e fechando,
Lutando, tentando, errando
Por lugares que são sempre iguais.
Só meus próprios passos são audíveis
Em meio ao silêncio e à solidão terríveis
À procura da luz que não verei jamais!


Sílvio Persivo

sábado, maio 19, 2012

o mistério dos rios

.
José Emídio


O mistério
dos rios
é que eles passam
por dentro
de nós
e só depois
desaguam no mar


Francisco Carvalho

sexta-feira, maio 18, 2012

Da vez primeira em que me assassinaram...

.

Cecily Brown


Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!


Mário Quintana

quarta-feira, maio 16, 2012

Novos ratos mostram a avidez antiga...

.
George Grosz


Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos
Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga


Sophia de Mello Breyner

quarta-feira, maio 09, 2012

dies irae

.
Marti Carbonell


Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!


Miguel Torga
Cantado por Luís Cilia 

sábado, maio 05, 2012

o segredo é não correr atrás...

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Sue Blackwell


O segredo é não correr atrás das borboletas…
É cuidar do jardim
para que elas venham até você.


Mário Quintana

sexta-feira, maio 04, 2012

poemas são pássaros...

.
Sue Blackwell


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...


Mário Quintana

quarta-feira, abril 25, 2012

Abril


Vladimir Kush


talvez um dia
em abril
abril renasça
mais forte

que este abril
não é abril

é trevo de pouca sorte.


Vieira da Silva

Abril

.
Vladimir Kush


que já foste...
que já não és...
que urge voltares a ser...


Maria Ema

segunda-feira, abril 23, 2012

Ah! O cheiro... gosto de começar pelo cheiro...

.
Jonathan Wolstenholme


Eu, por exemplo, gosto do cheiro dos livros.
Gosto de interromper a leitura
num trecho especialmente bonito
e encostá-lo contra o peito,
fechado,
enquanto penso no que foi lido.
Depois reabro e continuo a viagem. (…)
Gosto do barulho das páginas sendo folheadas.
Gosto das marcas de velhice que o livro vai ganhando:
(…) a lombada descascando,
o volume ficando meio ondulado com o manuseio.
Tem gente que diz que uma casa sem cortinas é uma casa nua.
Eu penso o mesmo de uma casa sem livros.


Martha Medeiros

sábado, abril 21, 2012

Grito como águas sem lugar

.
Steven Smith


Há na saudade pungente
Uma seara desejo
Uma giesta, um beijo
Sem tentação que o tente,

Uma seara apagão,
Uma só ténue lembrança,
Berço, eira-recordação
Que não passa de esperança.

E na saudade agonia,
Aquela em que eu vivo e vivia
Em movimento de fado,
Corre uma dor lancinante

Que embala a todo o instante
Como um ferrão tresloucado
A ausência de ti
E de tudo

Mesmo do que é recordado.


Paulo Anes

quinta-feira, abril 19, 2012

A minha colcha encarnada

.
Jim Morton


Perfumes estonteantes,
atiram-me embriagada
sobre os cetins roçagantes
da minha colcha encarnada!

Em espasmos delirantes,
numa posse insaciada -
rasgo as sedas provocantes
em que me sinto enrolada!

Tomo o cetim às mãos cheias.
Sinto latejar as veias
na minha carne abrasada!

Torcem-me o corpo desejos
mordendo o cetim com beijos
numa ânsia desgrenhada.


Judith Teixeira
Noite de Dezembro 1922 - Horas de Febre