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segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Eles...

...

Eric Maziade - funeral
(... de mortos -vivos)

Eles te advertem que a aurora foi abolida
por tempo indeterminado.
Eles te comunicam que o trigo e o vento
vão ser exportados para o arco-íris.
Eles te aconselham a esquecer
o corpo ensanguentado dos acontecimentos.
Eles te ensinam que o orvalho não cai
sobre aqueles que semeiam dúvidas.
Eles te mandam esvaziar as palavras
de toda a possível reminiscência.
Eles te fiscalizam do alto dos edifícios
escanchados nalgum dragão lunar.
Eles te dão um ataúde azul
e te ordenam que é tempo de morrer.


Francisco Carvalho

domingo, fevereiro 18, 2007

Os Vampiros - cada vez mais actual...

...

Edvard Munch

Os Vampiros

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada


Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

A toda a parte

Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo

Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada


Letra e música: Zeca Afonso

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Como a lua...

...

Livia Alessandrini - La Fenêtre de Van Gogh


Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles

terça-feira, fevereiro 13, 2007

vazia...

...

Sidney E. Dickinson


A gaveta da alegria
já está cheia
de ficar vazia

Alice Ruiz

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

domingo, janeiro 28, 2007

Depois, tudo estará perfeito

...

Israel Zzepda

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles

sexta-feira, janeiro 26, 2007

opinião pública

...

(roubado na net...)


25% querem
25% não querem
25% não sabem
25% não querem saber

33,33% têm medo
33,33% não têm medo
33,33% emudeceram

36,4% acreditam em parte
33,7% não acreditam em nada
29,4% querem acreditar em algo
23,2% são absolutamente céticos
28,6% são absolutamente crédulos
39,5% dão respostas múltiplas desesperadas

38% já foram antes
32% nunca foram
19% não se lembram como era
24% ainda não se esqueceram
47% não faziam a menor idéia
76% ficaram perplexos

X % estão certos
Y % estão fartos
N % estão mortos

Izacyl Guimarães Ferreira

quarta-feira, janeiro 24, 2007

o corpo lembra

...

Gustav Klimt


Esqueço sempre, mas o corpo lembra:
em breve
será dezembro.


Thiago de Mello

segunda-feira, janeiro 22, 2007

E aqui estou, cantando.

...

Livia Alessandrini


Discurso


E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajectória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?
Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?


Cecília Meireles

domingo, janeiro 21, 2007

Foz do Tejo, um país

...

George Lennard Lewis - view of the Tagus and Tower of Belém from the
the brittish legation in Lisbon (1880)




O rio não dialoga senão pela alma
de quem o olha e embebeu a sua alma
de olhares ribeirinhos no passado
ou à flor do pensamento no futuro.

É um país que fala dentro da fronte,
olhando as naus, navios, barcos pesqueiros
e o trilho das famintas aves pintoras
de riscos negros, que perseguem o odor
das redes cheias, as outrossim poéticas
familiares gaivotas. É uma costa inteira
de imagens de gaivotas dentro dos olhos.
São bocas a pensar razões da vida,
gargantas já caladas pela nascença e morte,
quando entre si se vêem ou juntas olham
o mar dos seus próprios dias. São cabeças
velhas de labutar, entre dentes cerrados,
as palavras mudas de um ofício no mar,
antigas de silêncio, como se no esófago
guardassem há muito a sabedoria de ir
enfrentar o mar, transpor o mar, estar.

Tal como um rio o mar só quer falar
pela dor e alegria de alma com que o chama,
há séculos na orla, um povo mudo,
com as palavras presas, guturais sem fôlego,
dentro de si, tão firmes no palato, articuladas
na língua interior. E o mar é quieto ou bravo,
e a alma tensa de uma paixão secreta,
escondida atrás da boca, e sempre aberta,
tal como as pálpebras diante desta água.

Só a alma sabe falar com o mar,
depois de chamar a si o Rio, no imo
de cada um, recordações, de todos
os que cumprem na linha da costa o seu destino.
O de crianças, berços nascidos à beira-mar,
aleitadas por água marinha bebida por rebanhos,
alimentadas por frutos regados pela bruma.
Mesmo quando petroleiros, se olharmos o mar,
passam sem som na glote, para nós mesmos dizemos
que o tempo já findou das caravelas outrora
e dentro do nosso sangue passa o tempo de agora.

Também as varinas, fenícias áfonas no poema
que as canta, sabem as formas, pelo olhar,
de serem mulheres com peixes à cabeça.
E os pregões que eu calo, revendo-as, eram outra
língua do mar, os nomes com que nos chamam
para o seu modo de levar entre as casas o mar.
Mas as dores não as ecoa o mar, nem mesmo
as de poetas, só as pancadas das palavras
no encéfalo parecem ser voz do mar.

É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós.
Glórias, misérias,que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no palato como estigma.



Fiama Hasse Pais Brandão

sábado, janeiro 20, 2007

Tomada de posse - governar é difícil...

... é um sacríficio feito em nome do povo

...

(roubado aqui: http://macroscopio.blogspot.com/2005_02_01_macroscopio_archive.html)

TOMADA DE POSSE

Eu, abaixo assinado, declaro solenemente, por minha honra
Que auferirei e desfrutarei
De todos os privilégios a que tenho direito
E de todas as mordomias que me serão concedidas
Como servidor e representante da Nação.
Prometo não esquecer que há crise… Para os outros
Prometo não dar mais regalias… Aos outros
Prometo cortar privilégios…. Aos outros
E com unhas e dentes defender os meus.
É uma honra servir este País
E depois de terminado o mandato
Irei como os meus antecessores
Para institutos ou empresas do Estado
Ou para a Caixa Geral de Depósitos
Fiel depositária de todos, os que como eu,
Não se distinguiram na governação
E que também assinaram este documento
Prometendo nele desfrutar ad eternum
Dos privilégios que me são concedidos
Por ter, mesmo que por pouco tempo,
Sentado o cu na cadeira do poder.

Encandescente



Antes e depois da tomada de posse
(Roubada no mesmo sítio do que a outra)

quinta-feira, janeiro 18, 2007

outro (também) deve olhá-la...

...

Mitchell Miller


Sobre mim a lua.
Lá atrás das altas montanhas
outro deve olhá-la.

 
Alexei Bueno

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Mas havia todo o teu corpo a desmenti-lo...

...

Pierre-August Renoir


Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono... Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará...)


E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo...


Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto...
Agora, nu, será feliz,
sob o afago do sol-posto...

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo...?
Seria Outono...
Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.


David Mourão-Ferreira

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Quem me dera voltar...

...

Claude Monet
...
...
Quem me dera voltar
às cores perdidas
nas tardes sem tempo
no mar deslumbrado
com seivas inquietas
das ervas que brotam
nas vidas corridas
nos medos
na alma a sangrar
...
Quem me dera voltar
ao silêncio de cantar
.
.
Constança Lucas

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Sim... creio que foi o sorriso

...

Gustav Klimt


Creio que foi o sorriso,
0 sorriso foi quem abriu a
porta.
Era um sorriso com
muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa,
ficar
nu dentro daquele
sorriso.
Correr, navegar, morrer
naquele sorriso.


Eugénio de Andrade

domingo, janeiro 07, 2007

era a mão de ninguém no meu cabelo...

...

Claude Monet


Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa
brava...

Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martirio
de São Sebastião, de Debussy....
Era, na jarra, de repente, um lirio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...


David Mourão-Ferreira

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Isto é o Teatro de Sã Bento onde se representam as comédias

...




Forasteiro em Lisboa



No Rossio o Prior de Santa Iria
Vendo um palácio, disse ao Canongia:
"Que será isto aqui?"
..............................................- D. Maria...
Onde se representam as tragédias.



Vai correndo a cidade, e sempre atento
Pergunta noutro sítio:
...................................-"Isto é convento?"
- Não! Isto é o Teatro de Sã Bento,
Onde se representam as comédias.


João de Deus

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Prometo ser eu!

...

Maria Ema
...
...
Prometo ser desobediente
E contestar todas as regras
Que não entenda, que não apreenda
Que não me expliquem
E que interfiram com a minha liberdade.
Prometo ser inconformada
Se ser conforme for assumir formas
Que não a minha
E conformada for aceitar
A imposição e aborrecimento duma rotina.
Prometo ser mal-educada
E mandar à merda quem me disser:
Sê conformada, tem paciência
A vida é isto, a vida é assim.
Prometo ser inconveniente
Se a conveniência não me servir
E conveniência for conivência
Aceitação, anulação e conformismo.
Ninguem nasce de trela e mordaça
Portanto, eu
Prometo ser eu!
Desobediente, inconveniente
Inconformada, mal-educada
E mandar à merda vida e regras
Quando e se me apetecer.

Encandescente, no livro Encandescente

terça-feira, janeiro 02, 2007

sábado, dezembro 30, 2006

desejo... sonho...

...
Guilherme de Faria
...
Fazer da areia, terra e água
uma canção
Depois, moldar de vento a
flauta
que há de espalhar esta canção
Por fim tecer de amor
lábios e dedos
que a flauta animarão
E a flauta, sem nada mais
que puro som
envolverá o sonho da
canção
por todo o sempre, neste
mundo


Carlos Drummond de Andrade


Desejo... sonho... tanto... ou tão pouco... para um ano completamente novo, prontinho a estrear, prontinho a usar?
Talvez, também, SAÚDE para o encher de AMOR … ALEGRIA … SONHO … MAGIA... será pedir ou desejar demais para que todos tenhamos um ano feliz?

Maria Ema

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Como escrever paixão sem ser assim...

...

Imagem "roubada" aqui:
http://instantesperdidos.blogspot.com


Como escrever paixão sem ser assim
Com o corpo nas palavras
Com os sentidos nos dedos
E os dedos sentindo
A paixão que fervilha dentro?
Como fazer amor sem ser assim
Como se cada vez fosse a última
E a última fosse a primeira
E o fogo ardesse dentro
Assim como arde na pele?
Como escrever amar sem ser assim?
Como escrever sem fazer amor?
Sem me entregar em cada poema
E dar-tos como me entrego
Incendiar as palavras
Como me incendeias o corpo
E arder no poema
Como ardo nos teus braços.
Como se cada poema fosse o último
E cada vez a primeira.


Encandescente

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Have You Really Ever Loved A Woman



Pierre-Auguste Renoir



To really love a woman to understand her
you gotta know her deep inside
hear every thought see every dream
and give her wings when she wants to fly

Then when you find yourself lying helpless
in her arms
you know you really love a woman

When you love a woman
you tell her that she's really wanted
You when you love a woman
you tell her that she's the one
she needs somebody
to tell her that it's gonna last forever
so tell me have you ever really
really really ever loved a woman

To really love a woman let her hold you
till you know how she needs to be touched
you gotta breathe her really taste her
till you can feel her in you blood
and when you can see your unborn children
in her eyes
you know you really love a woman

When you love a woman
you tell her that she's really wanted
when you love a woman
you tell her that she's the one
'cause she needs somebody
to tell her that you'll always be together
so tell me have you ever really
really really ever loved a woman

You got to give her some faith
hold her tight a little tenderness
you gotta treat her right
she will be there for you
taking good care of you
you really gotta love your woman

And when you find yourself lying helpless
Have in her arms
you know you really love a woman

When you love a woman
you tell her that she's really wanted
when you love a woman
you tell her that she's the one
'cause she needs somebody
to tell her that it's gonna last forever
so tell me have you ever really
really really ever loved a woman

Just tell me have you ever really
really really ever loved a woman
just tell me have you ever really
really really ever loved a woman


Bryan Adams

segunda-feira, dezembro 25, 2006

quisera...

tempo de adulto, tempo de criança

...

...
...
espero que me calhe a fava
que é costume meter no bolo-rei;
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais partilhava

numa ordem das coisas cuja lei
dos afectos e memória em nós grava
nalgum lugar da alma e que destrava
tanta coisa sumida que, bem sei,

pela sua presença cristaliza
saudade e alegria em sons e brilhos,
sabores, cores, luzes, estribilhos…
e até por quem nos falta então se irisa

na mais pobre semente a intensa dança
do tempo de adulto e tempo de criança.

Vasco Graça Moura

terça-feira, dezembro 19, 2006

Bastava uma palavra...

...

René Magritte


Bastava uma palavra para dizer
O quanto ele a amava
E não a queria perder
Mas tudo o que ele fez foi enlouquecer
Porque a boca não falou
O que o coração queria dizer...
São dois anjos caídos

Do paraíso
São dois anjos perdidos
A um passo do céu
Bastava uma palavra p'ra não deixar

Tudo o que eles tinham
Desaparecer no ar
Mas tudo o que ela fez foi ficar ali
A pensar que tudo o que queria
Era tê-lo junto a si...

Letra e música: Paulo Martins
Intérprete: Sexto Sentido

segunda-feira, dezembro 18, 2006

ao pôr do sol...

...

fotografia pessoal


é quase noitinha
o céu entorna no poente
um copo de vinho


Humberto del Maestro

sexta-feira, dezembro 15, 2006

E se falam!...

...

Vincent Van Gogh
«“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”»


Olavo Bilac

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Todas as tardes...

....

Lia Chechelashvili
Todas as tardes levo a minha sombra a beber
Como uma nuvem ao mar de que saiu o meu ser.

Vitorino Nemésio

quarta-feira, dezembro 13, 2006

só um colar...

. ..
Ivannikova Svetlana (adulterado por um colar...)


estava nua, só um colar lhe dava
horizontes de incêndio sobre o peito,
a transmutar, num halo insatisfeito,
a rosa de rubis em quente lava.

estava nua e branca num estreito
lençol que o fim do sono desdobrava
e a noite era mais livre e a lua escrava
e o mais breve pretérito imperfeito.

só o tempo verbal lhe fugiria,
no alongar dos gestos e requebros,
junto do espelho quando as aves vão.

toda a nudez, toda a melancolia,
a dor do mundo, a deslembrança, a febre,
os olhos rasos de água e solidão.


Vasco Graça Moura

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Beber água de Sonho...

....

Jean Honoré Fragonard


Santo e Senha

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.
Deixem, que vai apenas
Beber água de Sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.
Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora
Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
Uma estrela no chão.



Miguel Torga

sábado, dezembro 09, 2006

Sentes a poesia como eu?

....
Lin Eliz Schulz
...
...
Sentes
Como te percorro num poema?
Como sílaba a sílaba
Te toco e te quero
Te mordo e te desejo
E amando o poema
Te amo e me prendo a ti?
Sentes
Como as palavras se tornam dedos
Mãos, pernas?
E são como carícias que crescem
E tocam a pele
E a preenchem, a enchem
E sobem no corpo, são corpo
Carne e desejo que pulsa em mim?
Sentes
Como os versos se enrolam e se tocam?
Sentes como se entrelaçam e se enroscam
E te envolvem e te tocam
E se amam e te amam
E têm cheiros, e são sons
E ganham vida e se soltam
E na boca sabem a mim e a ti?
Sentes
Como é escrever as palavras?
Como é senti-las no corpo
Arrancá-las do corpo
Para tas entregar, para que as sintas
Para que o poema seja teu
E sejamos o poema
E eu seja a palavra
E tu sejas a poesia…
Sentes
Como te percorro num poema?...
...Encandescente

Segredo...

...

Gustav Klimt


Um beijo é um segredo que se diz na boca e não no ouvido.


Jean Rostand

sexta-feira, dezembro 08, 2006

blocos de gelo...

....
Bert Geer Phillips


Blocos

É isto vivemos dentro
de grandes blocos de gelo
sem aquecermos ao menos
com os dedos outros dedos
No fundo de nós temendo
que um dia se quebre o gelo

David Mourão-Ferreira

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Inquietas de tocar...

...
Rodin
Mãos

Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender


Sophia de Mello Breyner

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Poemas mãos

...
Antoine de Villiers


Não escrevo poemas rectos
Escrevo poemas sinuosos,
Como o teu corpo.
Não escrevo poemas inodoros
Escrevo poemas que têm cheiro,
Como o teu corpo.
Não escrevo poemas inocentes
Escrevo poemas indecentes
Como o que quero fazer,
Ao teu corpo.
Não escrevo poemas inconsequentes
Escrevo poemas sequelas
Marcas que quero deixar,
No teu corpo.
Não escrevo poemas silenciosos
Escrevo poemas que são gritos
Que quero arrancar,
Ao teu corpo.
Não escrevo poemas etéreos, intangíveis
Escrevo poemas mãos
Que querem tocar,
No teu corpo.




encandescentehttp://eroticidades.blogspot.com/2004/12/poema-sinuoso.html
Nota: a página já não funciona, mas foi daqui que, em tempos, tirei o poema