Páginas

segunda-feira, outubro 17, 2011

terça-feira, outubro 11, 2011

temos cinco sentidos...




Julie Del Ama


Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.

- Como quereis o equilíbrio?


David Mourão-Ferreira

domingo, outubro 09, 2011

Por vezes fêmea. Por vezes monja.




 Israel Zzepda


Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.


Natália Correia

quinta-feira, outubro 06, 2011

Poema de agradecimento à corja






Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.


Joaquim Pessoa

terça-feira, setembro 20, 2011

Sinto vergonha de mim... e tenho tanta pena de ti, povo português!




Sinto vergonha de mim…
por ter sido educador de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o “eu” feliz a qualquer custo,
buscando a tal “felicidade”
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,

a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos “floreios” para justificar
atos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre “contestar”,
voltar atrás
e mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo
que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer…

Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti, povo brasileiro!

 Cleide Canton

De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto. 

Ruy Barbosa

sábado, março 05, 2011

As aves levantam contra o vento




“Que farás quando vieres a descobrir que a febre que te moveu, e tomaste por verdade indiscutível, nunca passou a fronteira do sonho? Que vais tu fazer ao dar-te conta de que o teu país voltou à embriaguez antiga, dos milagres trazidos pelo vento que há-de chegar da Europa? À mesma corrompida cupidez, à rudíssima e torpe ignorância, à mesma fidalguia de fachada, à fatal temeridade? Que farás ao observar, após tanto sobressalto, que Portugal adormeceu de novo, num sono ainda mais profundo?”

Jorge Carvalheira


Entrou voando pelo sonho adentro.
Voava tão alto que não se apercebeu que muito poucos tinham descolado e que, mesmo desses, a maioria, não tinha largado as amarras.
Não se apercebeu de que apesar de Abril ter sido sonho de muitos, foi conquista de poucos e interiorização de muitos menos.
Não se apercebeu de que a liberdade é um sentimento que tem que vir de dentro. De que o que estava em causa era uma liberdade dada, emprestada, não adquirida, não assumida, não nascida em cada um. Não soube que, perante uma liberdade assim, a maioria não a saberia viver, não a saberia defender. Por isso não soube que os velhos medos ainda gritavam mais alto e que o peso do poder, do dinheiro e de interesses antigos continuariam a ser os mandantes.
Também não percebeu que o sonho se tinha começado a desfazer no preciso momento em que estava a nascer: - “um capitão?! não posso deixar cair o poder no chão” - “vão lá buscar o general do olho de vidro”.  E foram!...
Voava mais alto do que tudo isto e só via a beleza do que havia sido conquistado naquela madrugada e que, mais do que tudo, queria preservar; tão alto que o sonho se desmanchou e “entrou a voar pelo chão dentro” como já lhe acontecera de outra vez. Só que desta vez não “partiu a cara”, partiu a alma.

E, ao remendá-la, soube tudo isto, e, percebeu, também, este Portugal que nunca soube, não sabe e, dificilmente, virá a saber ser um país.

E, de todo este saber, narrando-se,  fez, numa soberba obra de literatura (ah! como eu gostava de saber escrever assim), o mais cáustico e mais belo relato, que me foi dado ler, sobre a incongruência deste país que vagueia, eternamente, entre uma meninice birrenta e uma adolescência imatura, sem nunca se tornar adulto; deste país que, bastas vezes, teve ventos a favor para levantar voo, mas teima em ficar, orgulhosa e teimosamente do lado contrário da pista, levantando e “borregando”, levantando e “borregando”, ad nauseam; deste país que sobrevive na arrogância despótica de uns e na subserviência de outros; deste país incapaz de se bastar a si próprio, vítima de uma autofagia insana.


Maria Ema

domingo, abril 25, 2010

com esperança nas sementes esquecidas...



Sei que está em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor no teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, que é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente

Algum cheirinho de alecrim

 Chico Buarque






Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto de jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim


Chico Buarque

sexta-feira, maio 01, 2009

Madrugada

.

in: redehumanizasus.net/node/1354
.
.
Dos que morreram sem saber porquê
Dos que teimaram em silêncio e frio
Da força nascida do medo
Da raiva à solta manhã cedo
Fazem-se as margens do meu rio.
.
Das cicatrizes do meu chão antigo
E da memória do meu sangue em fogo
Da escuridão a abrir em cor
De braço dado e a arma flor
Fazem-se as margens do meu povo
.
Canta-se a gente que a si mesma se descobre
E acordem luzes arraiais
Canta-se a terra que a si mesma se devolve
Que o canto assim nunca é demais
.
Em cada veia o sangue espera a vez
Em cada fala se persegue o dia
E assim se aprendem as marés
Assim se cresce e ganha pé
Rompe a canção que não havia
.
Acordem luzes nos umbrais que a tarde cega
Acordem vozes, arraiais
Cantam despertos na manhã que a noite entrega
Que o canto assim nunca é demais
.
Cantem marés por essas praias de sargaços
Acordem vozes, arraiais
Corram descalços rente ao cais, abram abraços
Que o canto assim nunca é demais
O canto assim nunca é demais
.
.
Letra e música: José Luís Tinoco
Interpretado por: Duarte Mendes

terça-feira, abril 28, 2009

Esperança...

.
René Magritte
.
.
Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade
.
Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.
Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?
.
Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
prometeengana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.
.
.
Almada Negreiros

sábado, abril 25, 2009

Sonho de liberdade...

.

Curtis Verdun - the dance of good and evil
.
.
Liberdade esta palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda.
.
Cecília Meireles


.
No teu poema
existe a esperança acesa atrás do muro,
existe tudo o mais que ainda escapa
e um verso em branco à espera de futuro.
.
José Luís Tinoco
.
.
Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia
.
Almada Negreiros

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Quantos seremos?

.

.
.
.
Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
.
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
.E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.
.
.Miguel Torga

domingo, janeiro 04, 2009

Blowin' In The Wind

.

.
.
How many roads must a man walk down
Before you call him a man?
Yes, 'n' how many seas must a white dove sail
Before she sleeps in the sand?
Yes, 'n' how many times must the cannon balls fly
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.
.
How many times must a man look up
Before he can see the sky?
Yes, 'n' how many ears must one man have
Before he can hear people cry?
Yes, 'n' how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.
.
How many years can a mountain exist

Before it's washed to the sea?
Yes, 'n' how many years can some people exist
Before they're allowed to be free?
Yes, 'n' how many times can a man turn his head,
Pretending he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.
.
.
Bob Dylan (Madison Square Garden NY 1971)

terça-feira, dezembro 23, 2008

Bom Natal para todos


.

(?)
.
.
As crianças viravam as folhas
dos dias enevoados
e da página do Natal
nasciam momentos prateados
.
da infância. Intérmina, a mãe
fazia o bolo unido e quente
da noite na boca das crianças
acordadas de repente.
.
Torres e ovelhas de barro
que do armário saíam
para formar a cidade
onde o menino nascia.
.
Menino pronunciado
como uma palavra vagarosa
que terminava numa cruz
e começava numa rosa.
.
Natal bordado por tias
que teciam com seus dedos
estradas que então havia
para a capital dos brinquedos.
.
E as crianças com tinta invisível
do medo de serem futuro
escreviam seus pedidos
no muro que dava para o impossível,
.
chão de estrelas onde dançavam
a sua louca identidade
de serem no dicionário
da dor futura: saudade.
.
.
Natália Correia

domingo, dezembro 21, 2008

Tejo

.

Manuel Faia
.
.
Madrugada,
Descobre-me o rio
que atravesso tanto
para nada,
.
E este encanto,
prende por um fio,
é a testemunha do que eu sei dizer.
.
E a cidade,
chamam-lhe Lisboa,
mas é só o rio
que é verdade,
só o rio,
é a casa de água,
casa da cidade em que vim nascer.
.
Tejo, meu doce Tejo, corres assim,
corres há milénios sem te arrepender,
és a casa da água onde há poucos anos eu escolhi nascer.
.
.
Letra: Pedro Ayres de Magalhães
Música: José Peixoto
Interpretado: Madredeus

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Pequenos deuses caseiros

.

Remedios Varo
.
.
Pequenos deuses caseiros
que brincais aos temporais,
passam-se os dias, semanas,
os meses e os anos
e vós jogais, jogais
o jogo dos tiranos.
o jogo dos tiranos.
o jogo dos tiranos.
.
Pequenos deuses caseiros
cantai cantigas macias
tomai vossa morfina,
perdulai vossos dinheiros
derramai a vossa raiva
gozai vossas tiranias,
pequenos deuses caseiros.
pequenos deuses caseiros.
.
Erguei vossos castelos
elegei vossos senhores
espancai vossos criados,
violai vossas criadas,
e bebei,
o vinho dos traidores
servido em taças roubadas
servido em taças roubadas
.
Dormi em colchões de pena,
dançai dias inteiros,
comprai os que se vendem,
alteai vossas janelas,
e trancai as vossas portas,
pequenos deuses caseiros,
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas.
.
.
Sidónio Muralha
cantado por Manuel Freire

terça-feira, dezembro 16, 2008

becos...


.

.
.
A vida bloqueada
instiga o teimoso viajante
a abrir nova estrada
.
.
Helena Kolody

domingo, dezembro 14, 2008

caminhos...


.

.
.
fios invisíveis
a aranha traça na teia
seu próprio caminho
.
.
Jorge de Olinda (araraquara - 1985)

sábado, novembro 22, 2008

Nunca poderia durar...

.

Pablo Picasso
.
.
.
"... é impossível fundar uma civilização sobre
o medo, o ódio e a crueldade.
Nunca poderia durar."
.
.
.George Orwell

quarta-feira, novembro 19, 2008

do esquecimento...

.

Ana Pardo (árbol del olvido)
.
.
Num verso cabe a vida e o seu olvido.
.
.Luís Filipe de Castro Mendes

terça-feira, novembro 18, 2008

partir...

.

Israel Zzepda
.
.
a loucura de partir correndo,
pelo sonho dentro...
.
.Teolinda Gersão

domingo, novembro 16, 2008

tanto faz...

.

Picasso
.
.
Pode-se pintar com óleo
com petróleo
ou aguarrás
.
Mas pode-se também pintar com lágrimas
silenciosas
.
No desprezo das horas odiosas
tanto faz

.
.
Mário Dionísio

sábado, novembro 08, 2008

esperança...

.

René Magritte
.
.
neste espaço a si próprio condenado,
dum momento para o outro pode entrar
um pássaro que levante o céu
.
.
Alexandre O'Neill

terça-feira, outubro 21, 2008

A mim quem me vence é o patrão

.

René Magritte
.
.
Ali está o rio
Dois homens na margem estão
Se um dá um passo o outro hesita
Será um valente? O outro não?
.
Bom negócio faz um deles
Tem o triunfo na mão
Do outro lado do rio
Só um come o fruto, o outra não
.
Ao outro passo o p'rigo
Novos castigos virão
Se ambos venceram o rio
Só um tubo ganha o outro não
.
Na margem já conquistada
Só um venceu a valer
Perdeu o outro a saúde
Mas nada ganhou pra viver
.
Quem diz "nós" saiba ver bem
Se diz a verdade ou não
Ambos vencemos o rio
A mim quem me vence é o patrão
.
.
Bertolt Brecht
Cantado por Zeca Afonso

domingo, outubro 19, 2008

Desbaratamos deuses...

.

?


Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.
Pensando nos secamos e perdemos…


Ary dos Santos

sexta-feira, abril 25, 2008

canção para a unidade

.

(roubado por aí...)


Há tanto tempo que eu a esperava
Nas noites longas das discussões
Clandestinas, prolongadas, eternos serões

Há tanto tempo que eu ansiava por ir cantar para a rua
Garganta nua sem espada apontada
Tanto tempo antevi a discutir e desejei
Tanto tempo sofri por tudo o que não disse e não cantei

Chamava-se ela Liberdade, Revolta, eu sei lá
Talvez justiça ou simplesmente Igualdade
E era como uma gaivota solta da gaiola da cidade

E ei-la que chegou esperada e alegre
Numa madrugada triunfal
Durante uns tempos ´inda se chamou Revolução, hum!
E tinha a palavra aberta e a mão na mão, lembram-se?
Tinha a palavra aberta e a mão na mão

Depois teve nomes, baptismos e crismas
Foi, foi a transição para…
Foi, foi também como sabem… a via original
Surgiram os ventos, surgiram os cismas
Ventos de través, ventos de través na nau de Portugal

E que vejo eu?
É preciso voltar a combater pela verdade
É preciso voltar a perceber o que é a unidade

Quando um povo se ergue e pergunta como é?
Alguém vai tremer
É preciso é unir esse povo
E ousar lutar, ousar vencer
E lembrarmo-nos de novo
Que há tanta coisa para fazer

Pela unidade popular é preciso é juntar esse povo,
E ousar lutar, ousar vencer
E lembrarmo-nos de novo
Que há tanta coisa para fazer


Poema e música de Pedro Barroso

quinta-feira, abril 17, 2008

Demagogia

...

Livia Alessandrini - Archeologia della mente
.
.
Dão nas vistas em qualquer lugar
Jogando com as palavras como ninguém
Sabem como hão-de contornar
As mais directas perguntas
.
Aproveitam todo o espaço
Que lhes oferecem na rádio e nos jornais
E falam com desembaraço
Como se fossem formados em falar demais
.
Demagogia feita à maneira
É como queijo numa ratoeira
P’ra levar a água ao seu moinho

Têm nas mãos uma lata descomunal
.
Prometem muito pão e vinho
Quando abre a caça eleitoral
Desde que se vêem no poleiro

São atacados de amnésia total
.
Desde o último até ao primeiro
Vão-se curar em banquetes, numa social
Demagogia feita à maneira

É como queijo numa ratoeira


Letra e música de Luís Pedro Fonseca
Álbum Perto de ti, Lena d’Água 1982

segunda-feira, março 31, 2008

Há dias

.

Castro Almeida
.
.
Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer:
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.
.
.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, março 21, 2008

quem me roubou o tempo?

.
Salvador Dali
.
.
quem me roubou o tempo que era um
quem me roubou o tempo que era meu
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo se escrevia
.
.
Sophia de Mello Breyner

domingo, dezembro 16, 2007

Carta para o Pai Natal


.
.
Talvez aches os pedidos meio extravagantes
Queria que pusesses juízo na cabeça destes governantes
Tira-lhes as armas e a vontade da Guerra
É que senão acabamos a pedir-te uma nova terra
.
Ao sem-abrigo indigente, dá-lhe uma vida decente
E arranja-lhe trabalho em vez de mais uma sopa quente
E ao pobre coitado e ao desempregado
Arranja-lhe um emprego em que ele nao se sinta explorado
E ao soldado, manda-o de volta pa junto da mulher
Acredita que é isso que ele quer
.

Vai ver África de perto, não vejas pelos jornais
Dá de comer às crianças, ergue escolas e hospitais
Cura as doenças e distribui vacinas
Dá carrinhos aos meninos e bonecas às meninas
E dá-lhes paz e alegria
Ao idoso sozinho em casa, arranja-lhe boa companhia
.

Já sei que só ofereçes aos meninos bem comportados
Mas alguns portam-se mal e dás condomínios fechados
Jatos privados, carros topo de gama importados
Grandes ordenados, apagas pecados a culpados

.
E já agora para acabar, sem querer abusar
Dá-nos paz e amor e nem é preciso embrulhar
Muita felicidade, saúde acima de tudo
.
Boss AC