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sábado, novembro 22, 2008

Nunca poderia durar...

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Pablo Picasso
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"... é impossível fundar uma civilização sobre
o medo, o ódio e a crueldade.
Nunca poderia durar."
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.George Orwell

quarta-feira, novembro 19, 2008

do esquecimento...

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Ana Pardo (árbol del olvido)
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Num verso cabe a vida e o seu olvido.
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.Luís Filipe de Castro Mendes

terça-feira, novembro 18, 2008

partir...

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Israel Zzepda
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a loucura de partir correndo,
pelo sonho dentro...
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.Teolinda Gersão

domingo, novembro 16, 2008

tanto faz...

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Picasso
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Pode-se pintar com óleo
com petróleo
ou aguarrás
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Mas pode-se também pintar com lágrimas
silenciosas
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No desprezo das horas odiosas
tanto faz

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Mário Dionísio

sábado, novembro 08, 2008

esperança...

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René Magritte
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neste espaço a si próprio condenado,
dum momento para o outro pode entrar
um pássaro que levante o céu
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Alexandre O'Neill

terça-feira, outubro 21, 2008

A mim quem me vence é o patrão

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René Magritte
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Ali está o rio
Dois homens na margem estão
Se um dá um passo o outro hesita
Será um valente? O outro não?
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Bom negócio faz um deles
Tem o triunfo na mão
Do outro lado do rio
Só um come o fruto, o outra não
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Ao outro passo o p'rigo
Novos castigos virão
Se ambos venceram o rio
Só um tubo ganha o outro não
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Na margem já conquistada
Só um venceu a valer
Perdeu o outro a saúde
Mas nada ganhou pra viver
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Quem diz "nós" saiba ver bem
Se diz a verdade ou não
Ambos vencemos o rio
A mim quem me vence é o patrão
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Bertolt Brecht
Cantado por Zeca Afonso

domingo, outubro 19, 2008

Desbaratamos deuses...

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?


Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.
Pensando nos secamos e perdemos…


Ary dos Santos

sexta-feira, abril 25, 2008

canção para a unidade

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(roubado por aí...)


Há tanto tempo que eu a esperava
Nas noites longas das discussões
Clandestinas, prolongadas, eternos serões

Há tanto tempo que eu ansiava por ir cantar para a rua
Garganta nua sem espada apontada
Tanto tempo antevi a discutir e desejei
Tanto tempo sofri por tudo o que não disse e não cantei

Chamava-se ela Liberdade, Revolta, eu sei lá
Talvez justiça ou simplesmente Igualdade
E era como uma gaivota solta da gaiola da cidade

E ei-la que chegou esperada e alegre
Numa madrugada triunfal
Durante uns tempos ´inda se chamou Revolução, hum!
E tinha a palavra aberta e a mão na mão, lembram-se?
Tinha a palavra aberta e a mão na mão

Depois teve nomes, baptismos e crismas
Foi, foi a transição para…
Foi, foi também como sabem… a via original
Surgiram os ventos, surgiram os cismas
Ventos de través, ventos de través na nau de Portugal

E que vejo eu?
É preciso voltar a combater pela verdade
É preciso voltar a perceber o que é a unidade

Quando um povo se ergue e pergunta como é?
Alguém vai tremer
É preciso é unir esse povo
E ousar lutar, ousar vencer
E lembrarmo-nos de novo
Que há tanta coisa para fazer

Pela unidade popular é preciso é juntar esse povo,
E ousar lutar, ousar vencer
E lembrarmo-nos de novo
Que há tanta coisa para fazer


Poema e música de Pedro Barroso

quinta-feira, abril 17, 2008

Demagogia

...

Livia Alessandrini - Archeologia della mente
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Dão nas vistas em qualquer lugar
Jogando com as palavras como ninguém
Sabem como hão-de contornar
As mais directas perguntas
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Aproveitam todo o espaço
Que lhes oferecem na rádio e nos jornais
E falam com desembaraço
Como se fossem formados em falar demais
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Demagogia feita à maneira
É como queijo numa ratoeira
P’ra levar a água ao seu moinho

Têm nas mãos uma lata descomunal
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Prometem muito pão e vinho
Quando abre a caça eleitoral
Desde que se vêem no poleiro

São atacados de amnésia total
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Desde o último até ao primeiro
Vão-se curar em banquetes, numa social
Demagogia feita à maneira

É como queijo numa ratoeira


Letra e música de Luís Pedro Fonseca
Álbum Perto de ti, Lena d’Água 1982

segunda-feira, março 31, 2008

Há dias

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Castro Almeida
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Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer:
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.
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Eugénio de Andrade

sexta-feira, março 21, 2008

quem me roubou o tempo?

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Salvador Dali
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quem me roubou o tempo que era um
quem me roubou o tempo que era meu
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo se escrevia
.
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Sophia de Mello Breyner

domingo, dezembro 16, 2007

Carta para o Pai Natal


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Talvez aches os pedidos meio extravagantes
Queria que pusesses juízo na cabeça destes governantes
Tira-lhes as armas e a vontade da Guerra
É que senão acabamos a pedir-te uma nova terra
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Ao sem-abrigo indigente, dá-lhe uma vida decente
E arranja-lhe trabalho em vez de mais uma sopa quente
E ao pobre coitado e ao desempregado
Arranja-lhe um emprego em que ele nao se sinta explorado
E ao soldado, manda-o de volta pa junto da mulher
Acredita que é isso que ele quer
.

Vai ver África de perto, não vejas pelos jornais
Dá de comer às crianças, ergue escolas e hospitais
Cura as doenças e distribui vacinas
Dá carrinhos aos meninos e bonecas às meninas
E dá-lhes paz e alegria
Ao idoso sozinho em casa, arranja-lhe boa companhia
.

Já sei que só ofereçes aos meninos bem comportados
Mas alguns portam-se mal e dás condomínios fechados
Jatos privados, carros topo de gama importados
Grandes ordenados, apagas pecados a culpados

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E já agora para acabar, sem querer abusar
Dá-nos paz e amor e nem é preciso embrulhar
Muita felicidade, saúde acima de tudo
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Boss AC

sábado, dezembro 08, 2007

horizonte vazio

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?


Horizonte vazio em que nada resta
Dessa fabulosa festa
Que um dia te iluminou.
As tuas linhas outrora foram fundas e vastas,
Mas hoje estão vazias e gastas
E foi o meu desejo que as gastou.
Era do pinhal verde que descia
A noite bailando em silenciosos passos,
E naquele pedaço de mar ao longe ardia
O chamamento infinito dos espaços.
Nos areais cantava a claridade,
E cada pinheiro continha
No irreprimível subir da sua linha
A explicação de toda a heroicidade.
Horizonte vazio, esqueleto do meu sonho,
Árvore morta sem fruto,
Em teu redor deponho
A solidão, o caos e o luto.


Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, novembro 30, 2007

Porque está de volta...

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Mario Henrique Leiria


Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
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Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
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Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça
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Sophia de Mello Breyner

segunda-feira, novembro 26, 2007

navio de espelhos

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Mário Cesariny


O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os amadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

E no mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ála
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo
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Mário Cesariny

sexta-feira, novembro 23, 2007

A gente se acostuma... mas não devia

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Mercedes Naveiro



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
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E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
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A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
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A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
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A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
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E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.
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A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.
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As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.
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Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
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Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
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Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
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A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.


.Marina Colasanti

domingo, novembro 18, 2007

direi como do corpo a música se extrai...

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Gustav Klimt
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Orquestra, flor e corpo:
doravante direi
como do corpo a música se extrai,
como sem corpo a flor não tem perfume,
como de corpo a corpo o som se repercute.
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Orquestra, sim: orquestra. E flor. E noite.
Doravante dizendo orquídea negra
é logo o violoncelo nomeado;
e logo, logo, os instrumentos de arco
arremessando vão a flecha ao alvo;
e é logo o alvo peito;
e é logo amor,
e é logo a noite
murmurando «Até logo!» à outra noite. . .
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De corpo a corpo a noite se transmite.
Orquestra, sim: orquestra. E flor. E vaga.
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E a noite é sempre o corpo anoitecido,
e o corpo é sempre a noite que se aguarda.
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De corpo a corpo o som se repercute,
de vale em vale,
de monte a monte,
de címbalo, de cítara, et coetera,
ao tímpano sensível que o recebe.
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Sem concha do ouvido,
o mar não tem rumor.
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Sem asa do nariz,
não voa a maresia.
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E o mundo só é mundo enquanto houver o corpo,
de música e de flor universal medida.
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David Mourão-Ferreira

domingo, novembro 11, 2007

Sou um funcionário cansado

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Frantisek Kupka
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A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.
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António Ramos Rosa

sábado, novembro 10, 2007

Ai!... os ais deste país!

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Photographer Matt Mueller - Painting in room 1414

of the Ascott Metropolis Hotel.
...
Os ais de todos os dias
os ais de todas as noites
ais do fado e do folclore
o ai do ó ai ó linda
.

Os ais que vêm do peito
. . . ai pobre dele coitado
. . . que tão cedo se finou
.
Os ais que vêm da alma

ais d'amor e de comédia
. . . ai pobre da rapariga
. . . que se deixou enganar
. . . ai a dor daquela mãe
.
Os ais que vêm do sexo

os ais do prazer na cama
os ais da pobre senhora
agarrada ao travesseiro
. . . ai que saudades saudades
os ais tão cheios de luto
da viúva inconsolável
.
Ai pobre daquele velhinho

. . . ai que saudades menina
. . .
. . . ai a velhice é tão triste

.
Os ais do rico e do pobre
. . . ai o espinho da rosa
os ais do António Nobre
ais do peito e da poesia
e os ais doutras coisas mais
. . . ai a dor que tenho aqui
. . . ai o gajo também é
. . . ai a vida que tu levas
. . . ai tu não faças asneiras
. . . ai mulher és o demónio
. . . ai que terrível tragédia

. . . ai a culpa é do António

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Ai os ais de tanta gente
. . . ai que já é dia oito
. . . ai o que vai ser de nós
.
E os ais dos liriquistas
a chorar compreensão
.
Ai que vontade de rir
E os ais do D. Dinis
. . . ai Deus e u é
.
Triste de quem der um ai

sem achar eco em ninguém
Os ais da vida e da morte

. . . ai os ais deste país
.

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Mendes de Carvalho ...

domingo, outubro 28, 2007

Pusemos tantos sonhos em seu nome!

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Julek Heller
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Vimos o mundo aceso nos seus olhos,
E por os ter olhado nós ficámos
Penetrados de força e de destino.
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Ele deu carne àquilo que sonhámos,
E a nossa vida abriu-se, iluminada
Pelas imagens de oiro que ele vira,
.
Veio dizer-nos qual a nossa raça,
Anunciou-nos a pátria nunca vista,
E a sua perfeição era o sinal
De que as coisas sonhadas existiam.
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Vimo-lo voltar das multidões
Com o olhar azulado de visões
Como se tivesse ido sempre só.
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Tinha a face voltada para a luz,
Intacto caminhava entre os horrores,
Interior à alma como um conto.
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E ei-lo caído à beira do caminho,
Ele - o que partira com mais força
Ele - o que partira pra mais longe.
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Porque o ergueste assim como um sinal?
Pusemos tantos sonhos em seu nome!
Como iremos além da encruzilhada
Onde os seus olhos de astro se quebraram?
.
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Sophia de Mello Breyner

sábado, outubro 27, 2007

ninguém te cala pensamento...

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Salvador Dali
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Quem marca uma fronteira àquela estrela
A asa que é a sua sombra onde mora?
Sob as mordaças calam-se as palavras
Mas ninguém te cala pensamento.
.Quem manda à semente não germines
Ao fruto dela que o não seja?
Amarram-se os pulsos com algemas
Mas ninguém te amarra pensamento.
.
Quem impõe ao dia que não nasça
Ao sol que é sua fonte que não brilhe?
Fecham-se as janelas com tapumes
Mas ninguém te cega pensamento
.Quem diz ao amor é impossível
À lembrança que é seu laço que o não seja?
Separam-se os amantes na distância
Ninguém te roubará meu pensamento.
.
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Joaquim Namorado

quarta-feira, outubro 24, 2007

desperdício

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?????
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Passamos a maior parte do tempo
na vã tentativa de recolher
os despojos do que fomos
mas nem juntamos os cacos do presente
nem resgatamos o soluço da véspera.

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.Newton de Lucca

sábado, outubro 20, 2007

Em que espelho ficou perdida?

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GeoffRoy Demarquet
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Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
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Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?
.
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Cecília Meireles

terça-feira, outubro 16, 2007

amor semeia a revolta (erguem-se muros)

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Remedios Varo
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Erguem-se muros em volta
do corpo quando nos damos
amor semeia a revolta
que nesse instante calamos
.Semeia a revolta e o dia
cobrir-se-á de navios (bis)
há que fazer-nos ao mar
antes que sequem os rios
.
Secos os rios a noite
tem os caminhos fechados (bis)
Há que fazer-nos ao mar
ou ficaremos cercados
.
Amor semeia a revolta
antes que sequem os rios...
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Intérprete: Adriano Correia de Oliveira
Música: Adriano Correia de Oliveira

Letra: António Ferreira Guedes

canção com lágrimas


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Odilon Redon
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Eu canto para ti um mês de giestas
Um mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada
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Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema
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Porque tu me disseste quem me dera em Lisboa
Quem me dera em Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro
.
Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio
.
Porque tu me disseste quem me dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol Lisboa com lágrimas
Lisboa a tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera...
.
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Intérprete: Adriano Correia de Oliveira
Música: José Niza
Letra: Manuel Alegre

domingo, outubro 14, 2007

o infinito afinal fica aqui ao pé da gente...


...

Joan Miró
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Duas linhas paralelas
muito paralelamente
iam passando entre estrelas
fazendo o que estava escrito:
caminhando eternamente
de infinito a infinito.
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Seguiam-se passo a passo
exactas e sempre a par
pois só num ponto do espaço
que ninguém sabe onde é
se podiam encontrar
falar e tomar café.
.Mas farta de andar sozinha
uma delas certo dia
voltou-se para a outra linha
sorriu-lhe e disse-lhe assim:
«Deixa lá a geometria
e anda aqui para o pé de mim...»
.Diz a outra: « Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
se quisermos lá chegar
temos de ir devagarinho
andando sempre a direito
cada qual no seu caminho!»
.
Não se dando por achada
fica na sua a primeira
e sorrindo amalandrada
pela calada, sem um grito
deita a mãozinha matreira
puxa para si o infinito.
.E com ele ali à frente
as duas a murmurar
olharam-se docemente
e sem fazerem perguntas
puseram-se a namorar
seguiram as duas juntas.
.
Assim nestas poucas linhas
fica uma estória banal
com linhas e entrelinhas,
e uma moral convergente:
o infinito afinal
fica aqui ao pé da gente.
.
.José Fanha

terça-feira, outubro 09, 2007

Há sempre um sobrenome...

...

Shwidkiy Andrey
.
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Porém, é impossível descobrir o
nome inteiro das coisas.
Há sempre um sobrenome,
três ou quatro designações de família,
e várias aproximações que nos escapam.
Uma coisa simples como a pedra
poderá ter tantos nomes incertos
como a água. E é só um exemplo.
Daí a dificuldade para entender
um único dia.
É impossível saber o nome inteiro da vida.
..

Gonçalo M. Tavares

segunda-feira, julho 23, 2007

Quando é que será quando?

...

Remedios Varo
..

Quando é que o cativeiro
Acabará em mim?
E, próprio dianteiro,
Avançarei enfim?
.
Quando é que me desato
Dos laços que me dei?
Quando serei um facto?
Quando é que me serei?
.
Quando ao virar da esquina
De qualquer dia meu,
Me acharei alma digna
Da alma que Deus me deu?
.
Quando é que será quando?
Não sei. E até então
Viverei perguntando:
Perguntarei em vão.
..
Fernando Pessoa

quinta-feira, julho 19, 2007

e finjo que sou eu que vou...

...

Remedios Varo


A minha sombra sou eu,
ela não me segue, eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nascia
distância imutável de minha sombra a mim
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!


Almada Negreiros